23 dezembro, 2016

UTOPIA ACÚSTICA

Frederic Edwin Church


Há muito que li As Anotações de Malte Laurids Brigge mas aparece por lá uma frase que nunca me saiu da cabeça e da qual me lembro bastante em momentos de grande stress, ansiedade, delirium tremens mental, consumismo exacerbado ou de sentimentalidade química, como é o caso desse belo horrendo que é o Natal:

«Mas eu estou a ler outro poeta, que não vive em Paris, que é totalmente diferente. Ele tem uma casa sossegada na montanha. Ele soa como um sino no ar puro».

Paris surge aqui em oposição ao poeta, revelando o que apresenta uma grande e exacerbada cidade em oposição a um simples poeta. A cidade com a sua orgia de sensações, de movimentos, de funções e finalidades, de códigos. O poeta, reduzindo-se apenas a um som, um som que emerge para logo se diluir no ar puro de uma montanha. Esta imagem sonora de um sino ecoando no ar puro, persegue-me há anos. Como explicá-la? O ar puro de uma montanha surgir como uma imaculada folha branca na qual se desenha o cadenciado som do sino. O soar do sino ser absorvido organicamente pelo ar puro, confundindo-se depois ambos numa matéria informe ou numa forma sem matéria. Talvez um som forte e metálico como o de um sino permita ouvir o ar puro que emerge silenciosamente nos seus intervalos. Pode tratar-se de uma imagem que invoca um tempo antigo, uma espécie de reminiscência platónica, só que, em vez de resgatar entidades matemáticas e geométricas adormecidas nos confins da alma, um passado que praticamente se extinguiu com a divina electricidade de Álvaro de Campos e Marinetti. Esticando um bocadinho a corda, quem sabe se este dialéctico bailado entre o sino e o silencioso ar puro, não invoca o jungiano contraste entre Animus e Anima.

Não sei, se calhar um mistura de tudo isso. Poderia até mesmo alinhar com Rilke e ficar-me com a poética imagem do poeta soando como um sino no ar puro. Mas não, percebo a ideia mas vou responder à minha maneira, sendo o mais  básico e elementar possível: o soar de um sino no ar puro da montanha pode ser só mesmo o soar de um sino no ar puro da montanha o soar de um sino no ar puro da montanha o soar de um sino no ar puro de uma montanha.