20 dezembro, 2016

QU' EST CE QUE JE NE SAIS PAS?

Emmet Gowin

Tal como Marsílio Ficino nos muros da sua villa toscana, Montaigne mandou escrever com tinta várias citações nas vigas de madeira da sua, muito sua, girondina torre. Como Quixote, mas sem cair na vertigem da loucura, mergulhou bem fundo no mundo dos livros, sobretudo os clássicos, daí as citações latinas e gregas com que povoou o seu refúgio campestre, uma espécie de versão livre, aberta e jovial da obscura biblioteca tão bem guardada pelo cego Jorge de Burgos como o Hades por Cérbero.

Citações que se encaixam perfeitamente no espírito de Montaigne como esta, latina, de Plínio, o Velho: «Só há uma certeza: nada é certo. E nada há de mais miserável e de mais orgulhoso do que o homem». Ou esta, grega, tirada de Eurípides: «Que homem pode ter grande estima de si mesmo/ Quando ao primeiro incidente é reduzido a nada?» Montaigne sabe do que fala, logo ele que viu morrer o seu irmão durante um jogo inofensivo ou o seu grande amigo, La Boétie, que dos seus seis filhos apenas um atingiu a vida adulta, tendo ele próprio estado igualmente entre a vida e a morte por causa de um estúpido acidente de cavalo aos trinta e tal anos. Para já não falar dos momentos terríveis da história de França que pôde presenciar, marcados por uma irracional violência e absoluta falta de bom senso. Falta de vacinação para os infortúnios não é coisa de que Montaigne se pudesse assim queixar.

Mas há uma dessas citações, de Sófocles, que me deixa intrigado: «Não pensar em nada, é a mais bela das vidas/Pois a ausência de pensamento é um mal perfeitamente indolor». Como é possível alguém como Montaigne sentir-se atraído por uma citação destas? A vida de Montaigne teve momentos dramáticos, é verdade, mas não é um Sófocles que, como os outros tragediógrafos, se especializou a transformar a vida numa galeria de horrores para impressionar os seus concidadãos. Édipo, Antígona, Electra, Prometeu, Medeia, Ifigénia, Hipólito, esses sim, fossem idiotas e com um destino vulgar, e teriam sido mais felizes. Mas Montaigne? Um homem que toda a vida procurou saber quem é, o que fazer, como ser, o que saber? Que casou a vasta erudição com a mais chã simplicidade, sempre em busca de uma resposta para o que é uma vida boa? Um homem que, como bom estóico que também era, chutava para canto em relação a tudo o que pudesse ser inquietação face à morte, encarando-a como coisa natural, como um não-problema?

Haverá então um conflito entre um Montaigne que foi presidente de câmara, agricultor, diplomata, incansável viajante, enfim, um homem do mundo que procurou sempre o lado mais luminoso e normal da vida, e um outro Montaigne, ainda mais íntimo e pessoal do que a intimidade que assume publicamente nos seus Ensaios, só que pessimista, sem coragem para confessar o absurdo e o não-sentido de uma vida que, como Sísifo com o seu rochedo, tem de ser carregada às costas? Se for esse o caso, a citação faz todo o sentido. É dramática, confrangedora, terrível mesmo, a ideia de não pensar, de não ter consciência de si, enfim, de se ser um idiota. Mas talvez seja mesmo abençoada, a idiotice. Um tipo morre sem saber quem é, mas com o feliz privilégio de poder morrer sem saber que não sabe o que é.