05 dezembro, 2016

PHOTOMATON E RADEX


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O Manifesto Comunista não foi publicado num ano qualquer. Foi em 1848. Para a história, não é apenas mais um ano, como o de 1847 ou de 1849, ainda que nestes tenham acontecido coisas importantes. Há anos assim. Por cá, 1640, 1910 ou 1974 não são iguais a 1639, 1911 ou 1973. Em França, 1789 distingue-se bem de 1788, mas já em Inglaterra 1688 e 1689 surgem associados, o que não acontece com os vulgares pares de 1686 e 1687 ou 1690 e 1691.

Nesse ano de 1848, um ano conhecido por 'Primavera dos Povos', um ano de revoluções na Europa, de grandes esperanças e confiança no futuro, são deveras impressionantes a auto-confiança e optimismo do Manifesto enquanto cartão de apresentação de um mundo novo. Todavia, ontem, ao consultá-lo, não pude deixar de me surpreender com esta passagem cujo impacto talvez tenha sido acentuado pelas melancólicas feições de um dia cinzento e chuvoso:

«Todas as relações fixas e enferrujadas com o seu cortejo de vetustas ideias e concepções são dissolvidas, todas as novas que vão surgindo ficam velhas antes de terem um esqueleto que as suporte. Tudo o que é sólido e estável se volatiliza [...]»

Num texto tão revolucionário e triunfal como é o Manifesto, qual ode proletária, qual salmo vermelho que anuncia a gravidez de um futuro mais-que-perfeito, em que se ouve a uivante locomotiva da história com as suas rodas e engrenagens, em que se sentem os espasmos de um mundo novo, esta passagem surge com a cruel e amarga sapiência de um coro grego. Não deixa de ser estranho ler isto pouco mais de 150 anos depois, olhando para o futuro do Manifesto como sendo o nosso passado. É quase como estar com o professor John Keating, vendo fotografias dos já todos mortos antigos alunos quando eram jovens. Não se trata de um juízo de valor, de um desejo, de uma impressão subjectiva. Nada disso, é a violência atroz do tempo na textura da realidade, tão objectiva e cruamente como um coração desenhado num cimento ainda fresco.

Um dia cinzento e chuvoso pode ser a causa de sentimentos melancólicos face à perda irreversível de todas as coisas que florescem e se dissolvem de novo na terra. No campeonato das causas, porém, é difícil rivalizar com a ironia dos acasos, vindos de onde menos se espera. Eu leio a referida passagem já na parte final da página 63, a qual fez emergir o melancólico estado de espírito que acabo de evocar. Quando viro a folha para continuar na página seguinte, ainda a cismar no que acabo de ler, vou dar com uma folhinha de Radex, um dos meios usados para corrigir letras, palavras ou frases no tempo em que se usavam máquinas de escrever. O Radex era tão importante que não se podia passar sem ele. Seria impensável começar a bater texto sem o Radex. Aquela folha de Radex estava imaculada, não chegou a ser usada. Certamente que a coloquei ali como marcador (lembro-me de as usar como marcador). Não me lembro por que razão ficou na página 64 em vez da página 34 ou 76. Mas não deixa de ser impressionante a coincidência entre uma frase nova sobre a morte de tudo provocada pelo tempo, e uma folha de Radex nova mas, como as folhas caídas de Outono que vagueiam sem destino, enfim, como a mão morta de Marcenda de O Ano da Morte de Ricardo Reis, no seu juvenil corpo, perdida e inútil dentro daquele livro que já foi novo, naquele primaveril ano dos povos.

Ainda me lembro da sensação de ter comprado a máquina de escrever, com o meu dinheiro ganho a trabalhar nas férias, antes ainda de ir para a faculdade, e com a qual passei dias e noites da minha vida a escrever, acolitado pelas folhas de Radex. Diz-me a primeira página do Manifesto, junto da minha assinatura escrita com uma letra que já não é a minha, que o livro foi adquirido em Fevereiro de 1983. Livro sobre o qual bastante escrevi para uma cadeira de Filosofia Social e Política, quase acreditando na sua profecia e na inexorável lei da história que a acompanha. Tinha 22 anos e aos 22 anos, quando o futuro ainda está longe de ser passado, temos o direito de acreditar em tudo, pois é ainda demasiado cedo para saber que tudo o que é sólido e estável se volatiliza.