04 dezembro, 2016

O SOL DO NABAL

Botticelli | Inferno [Malebolge]

Chega a ser comovente a intrépida fé e ingenuidade destes homens (eu deveria acrescentar, como agora se diz, «e destas mulheres», mas aproveito o facto de o artigo remeter mesmo só para homens e assim escapar à ditadura do politicamente correcto) no fim do capitalismo e na reanimação do Lázaro comunista. Já menos digno de comoção e mais digno de uma esforçada indulgência cristã é a sua não menos intrépida estupidez, só batida pela intrépida hipocrisia de todos aqueles que, na mesma linha de um fundamentalista islâmico, execram um sistema de cujos benefícios adoram usufruir.

Há desde logo uma diferença fundamental entre o capitalismo e o comunismo que pode ajudar a explicar a teimosa longevidade do primeiro e a vida, felizmente, breve do segundo. Este foi projectado por ideólogos do século XVIII e XIX, uns de pendor mais filosófico, outros, mais engenheiros políticos, no silêncio meditativo dos seus gabinetes recheados de livros condimentados com excelsos valores e princípios. Enquanto programa social e político, o comunismo foi um coelho saído de uma cartola teórica, para gáudio de infantis crédulos deslumbrados pelas luzes, lantejoulas e ouropéis de tão grandioso espectáculo circense. O problema é quando os coelhos saem do circo para a realidade. Quebra-se a magia e o encanto de tão amorosa teoria e, como diria Steiner, depois de um fim-de-semana chega sempre uma 2ª feira de manhã em que é preciso gerir a realidade. E a realidade é o que todos sabemos: pobreza, opressão, tortura, milhões e milhões de mortos e até mesmo ao nível estético, uma pobreza confrangedora com a sua arte socialista e uma arquitectura que parece ter saído da mão de alguém que passou uma noite em branco com violentas cólicas renais. Como diria Lenine, partam-se os ovos que forem precisos até termos finalmente a omelete. Omelete invisível, como diria Isaiah Berlin, daí os ovos partidos nunca chegarem ao fim, sempre em busca da tão desejada omelete.

E o capitalismo? O capitalismo não surgiu dos gabinetes ou ateliers de ideólogos que, com uma regra e esquadro na mão, projectaram uma dada sociedade de acordo com certos princípios e valores. Engels, um intelectual simpático, ao que parece, boa pessoa e que até fazia anos no mesmo dia que eu, sentiu tanta necessidade de criar um protagonista para o capitalismo, ainda que simbolicamente, que acaba por dizer uma coisa muito engraçada, para não dizer divinamente cómica, no prefácio à edição italiana de 1893 do Manifesto do Partido Comunista:

O Manifesto presta plena justiça ao papel revolucionário desempenhado pelo capitalismo no passado. A primeira nação capitalista foi a Itália. O fim da Idade Média feudal e o início da era capitalista moderna são assinalados por um figura colossal: um italiano, Dante, ao mesmo o último poeta da Idade Média e o primeiro poeta dos tempos modernos. Hoje, como em 1300, avizinha-se uma nova era histórica. Dar-nos-á a Itália o novo Dante que assinalará a hora do nascimento desta nova era, a era proletária?

Tirando o lado divertido de poder imaginar uma nova versão do cantor de Beatriz Portinari com uma foice e martelo bordados num aveludado colete novecentista, é absolutamente espúria esta entronização ideológica do florentino príncipe das letras, estando até ao nível do poder visionário daquele. E sem sairmos de Florença, nem mesmo Maquiavel, apesar de já ali teoricamente germinar a política moderna, poderá estar associado a qualquer projecção de uma sociedade capitalista. O capitalismo surgiu espontaneamente, sem programa, sem filosóficos wishful thinkings, tendo acabado por singrar simplesmente porque resultou. Pronto, resultou, seja lá o que isso for! Como uma semente que penetra espontaneamente a terra, que vai crescendo até acabar numa árvore que, essa sim, depois é cuidada e alvo de toda a atenção porque cria riqueza, sendo a partir dela que tudo gira. O que não aconteceu com o comunismo dos filósofos, engenheiros e revolucionários, que, ao contrário do que diz Albano Nunes, que não sendo cego, não quer ver, morreu mesmo no século XX, o mesmo século em que nasceu, e de doença prolongada. Chegou, viu mas não venceu, bastando um rato catita para esmagar a mesma montanha que esmagou milhões de animais na sua orwelliana quinta.

O capitalismo está em crise? Deuses, mas o capitalismo é sinónimo de crise. Porém, acaba sempre por sobreviver, não porque forças totalitárias o imponham e o defendam com cães de guarda, como aconteceu com os regimes comunistas, mas porque, pelo menos por enquanto, não existe alternativa, podendo-se dizer a seu respeito o mesmo que Churchill sobre a democracia. Agora, independentemente das suas crises, injustiças e imperfeições, foi o capitalismo que permitiu o maior nível de desenvolvimento, de bem-estar e justiça social ao ser humano. Ainda hoje (e não é agora o momento de discutir os níveis de felicidade dos índios da Amazónia ou de remotas tribos da Papua-Nova Guiné), é esse capitalismo tão odiado pelos arautos de amanhãs cujas cordas vocais romperam, que faz com que seja melhor viver na Alemanha, na Suécia ou até num país modesto como Portugal, do que nas velhas URSS, Bulgária, Roménia, DDR ou Albânia, para já não falar nas actuais Cuba ou Coreia do Norte.

O comunismo é uma criação filosófica com péssimos resultados na prática. Mas, aproveitando esta gente a sua vocação para o exercício filosófico, bem podia deixar de vez os catecismos e começar a perceber que o comunismo é uma impossibilidade lógica. Igualdade e liberdade, palavras escritas a ouro em pedra inquebrantável como a que Moisés desceu o Monte Sinai, são inconciliáveis. É como ter Sol na eira e chuva no nabal. Podem aproximar-se mas sem nunca chegar a tocar-se. E, até ver, onde melhor se aproximaram, foi precisamente em países capitalistas. Claro que empurrado por certos princípios e valores que devemos ao bom senso e honestidade intelectual de muita gente. Que apesar de diferentes tinham em comum o facto de não serem comunistas.