08 dezembro, 2016

O COMBOIO

Irmãos Lumière | Chegada do comboio à estação [fotograma]

Os fios que o acaso tece são sobretudo surpreendentes quando ocorrem as mais improváveis coincidências. Um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos, virar à direita em vez de à esquerda ou à esquerda em vez de à direita, e o surpreendente facto que nos leva a dizer com um sentimento de perplexidade «Que grande coincidência!», nunca teria chegado a ocorrer.

O que nunca nos passa pela cabeça é o que nunca chegou a acontecer...por mera coincidência. De igual modo, um segundo a mais ou a menos, um metro a mais ou a menos, virar à direita em vez de à esquerda ou à esquerda em vez de à direita, e teria acontecido o que nunca chegou a acontecer. Nunca nos passa, nem poderia passar pela cabeça. Como diria Parménides de Eleia, não se pode pensar o que não é, não há pensamento ou discurso para o que não existe.

Cada pessoa tem o seu currículo de coincidências para contar: três, quatro, meia dúzia, umas mais impressionantes do que outras. Porém, tão ou mais impressionantes são as muitas, provavelmente bem mais do que as anteriores, coincidências que fizeram com que não acontecesse uma coincidência que teria mudado o rumo das vidas, sem termos sequer consciência de que também elas mudaram por causa do que nunca chegou a acontecer. Nas vidas, para além de sabermos o como e porquê de muita coisa que muda, há também muita coisa que não muda sem sabermos como e porquê, por não sabermos que não chegou a acontecer. Para nós, que só temos olhos para o que é, nada mudou. Mas quem, como Deus ou um romancista,  tem olhos para o que é e o que não é, há mudança precisamente por nada ter chegado a mudar.

Um dos meus contos preferidos de Nabokov chama-se 'Acasos' e é precisamente sobre as coincidências de uma coincidência que não chegou a acontecer. Um casal russo, marido e mulher, separados há cinco anos devido à revolução, sem saberem um do outro, quase se chegam a encontrar na carruagem-restaurante de um comboio na Alemanha, o que teria sido uma grande coincidência resultante de múltiplos acasos. Mas foi também um conjunto de acasos que fez com que, por um triz, tal encontro não chegasse a ocorrer.  Logo depois, ele morre enquanto ela segue o seu percurso em busca dele, sem saberem que estiveram no mesmo comboio, fazendo a mesma viagem. O que no conto acontece e não acontece no comboio é, noutro plano, a própria vida.