17 dezembro, 2016

DE ANIMA



Que estranha sensação, a de voltar a pegar no Prelúdio, de Wordsworth, coincidindo com as minhas aulas de Psicologia dedicadas ao estudo de Piaget sobre desenvolvimento cognitivo. Falar disso é falar de assimilação, acomodação, adaptação, equilibração, estruturas, operatividade, esquemas de acção e mentais. Eis o nosso imparável percurso mental entre a básica sucção no conforto do berço e os raciocínios abstractos e hipotético-dedutivos que tanto nos enchem de orgulho, seja mais antropológico, seja mais individual e egocêntrico.

O Prelúdio, ou ainda chamado Growth of a Poet Mind, é um longuíssimo poema autobiográfico e confessional onde o escritor relata, literalmente, a sua vida desde tenra idade. Que estranho é estar ainda mergulhado na aparelhagem conceptual do psicólogo construtivista e tropeçar, ou melhor, deslizar num verso como 'A minha alma teve um belo tempo de sementeira' [Fair seed-time had my soul]. Que 'alma' e 'sementeira' serão estas de que fala o poeta a respeito da sua infância? Serão apenas uma tradução literária de conceitos científicos como o de 'mente' ou 'contexto sócio-cultural', a simples tradução de um código científico para um código poético?

Não. Não se trata do conceito de 'alma' de acordo com a tradição filosófica, tanto no seu sentido mais metafísico como num outro que, estivessem vivos filósofos como Aristóteles, Descartes ou Espinosa, seria de carácter científico, dando o seu contributo para o hodierno problema da relação entre o cérebro e a mente. Muito menos, aliás, num sentido que remeta para uma 'estrutura cognitiva' em desenvolvimento. Nem tão pouco como é entendido na tradição religiosa.

A 'alma' de Wordsworth é de uma outra e bem diferente ordem. Não se trata de um dispositivo ao qual associamos especificamente inteligência, sentimento, emoção, motivação, desejo, memória, mas de uma totalidade que condensa todos esses elementos num mesmo plano indiferenciado. Não por acaso, pensa-se em alma ou sente-se a alma em situações extremas de felicidade ou infelicidade. Sente que tem uma alma, quem se sente profundamente feliz ou profundamente infeliz, quem olha para dentro de si e vê plenitude ou vazio, uma diáfana claridade ou a plúmbea obscuridade das trevas e, consequentemente, quem olha para o mundo exterior, projectando nele essa mesma realidade interior. Quem não o sente, não olhará para dentro de uma alma, nem de uma alma consegue extrair seja o que for. Vê ou extrai conteúdos ligados às suas inteligência, memória, desejo, motivação, sentimento, emoção, mas de um modo ad hoc, avulso, parcial, desligado, ainda que num contexto de estabilidade e coerência interna.

Daí que, ao contrário, da inteligência, da memória, do desejo, da motivação, do sentimento, da emoção, que podem ter diversos graus, diferenciados numa espécie de gráfico mental através de cores ou quantidades que distinguem o muito, o assim-assim, o pouco, ou o nada, só existem duas almas, que se posicionam dicotomicamente: a alma feliz e a alma infeliz. Duas almas que filtram de modo igualmente oposto as mesmas realidades, as quais, para uma, faça chuva ou faça Sol, seja a hora de mais luz, seja a hora mais crepuscular, será sempre causa de felicidade e de plenitude, enquanto para a outra, de infelicidade e entropia. Tendo cada vez mais respostas para tudo, também aqui a ciência tem uma palavra a dizer, acabando por dizê-lo. Mas nada como um poeta para o explicar.