18 dezembro, 2016

ANALÍTICOS E CONTINENTAIS

Hoje, depois de almoço, antes de ir ao pão, à fruta e abastecer-me de polvo com 30% por cento de desconto e de massas da Rana com 50%, passei pela Book It para uma olhadela nas estantes. É verdade que não há muito para ver mas chamou-me a atenção este livro na secção de livros técnicos,


bem encostadinho a um outro intitulado «Sistema de Normalização Contabilística» e bem próximo de outros como o «Novo Código do Processo Civil», «Ferramentas de Coaching» ou outro de Anatomia de cujo nome não me lembro.

Entretanto, viro as costas para a outra estante mesmo em frente, vejo que está identificada com a etiqueta «Tempos Livres», e passo os olhos como cão por vinha vindimada (eis o meu lado cínico no seu melhor ou pior, conforme a perspectiva), mas acabo por atropelá-los com este livro:


Como habitualmente o algodão não engana, os seus parceiros de estante, livros como «Maquilhagem Real para Mulheres Reais», «Terapia das Cores-Caderno de Notas Inspiracional», «A Terapia do Tricot», «Tranças e Apanhados» (sim, um livro mesmo dedicado a cabelos e seus diferentes penteados) ou «Um Jardim Dentro de Casa», logo me fizeram perceber que se tratava mesmo de uma secção de tempos livres.

O meu elevado dom dedutivo, que com orgulho me distingue dos manchegos desvarios de dom Quixote, logo me fez concluir que não pode ter sido a mesma funcionária a arrumar estes dois livros nas respectivas prateleiras. Tiveram que ser duas funcionárias, e duas funcionárias com apuradíssimos e bem distintos critérios filosóficos. Quero eu com isto dizer que certamente não se tratou de uma arrumação arbitrária, motivado por um analfabetismo filosófico ou de um outro mais genérico, resultado deste tempo indigente. Bem pelo contrário, tratou-se de uma escolha bastante criteriosa, marcada por dois modelos cujo antagonismo é tão acentuado na Filosofia como o do Benfica e Sporting no que à bola diz respeito, de um muçulmano e de um alentejano perante uma travessa de carne de porco ou do Gonçalo M. Tavares e da Margarida Rebelo Pinto na literatura: o modelo analítico e o modelo continental.

A funcionária que arrumou o primeiro livro na secção de livros técnicos, vê o filósofo, acima de tudo, e na linha de Blackburn, como um engenheiro conceptual. A Filosofia é um exercício argumentativo que deve ser levado com extremo rigor conceptual, estar centrado numa abordagem objectiva dos problemas e na maior aproximação possível a um modelo matemático e científico, acreditando que, desse modo é possível avançar na resolução de problemas. O filósofo, deste modo, deve estar para a resolução de um problema como um engenheiro para a construção de um ponte, um ministro das Finanças para a resolução do défice ou o juiz Carlos Alexandre para a formulação da acusação do engenheiro Sócrates. Aliás, a própria capa do livro, mais parecendo o intrincado circuito electrónico de um gadget, faz um livro de Filosofia parecer um livro de Engenharia Electrónica, devendo ter sido essa a ideia de Filosofia com que ficou a funcionária depois de ler livros de Carnap, Kripke, Hempel ou Jeffrey.

Já a experiência filosófica da outra funcionária é completamente distinta. Verá a Filosofia como um exercício, sim, mas um exercício cuja liberdade conceptual e argumentativa, incluindo tantas vezes uma aproximação à escrita literária, acaba por transformá-la num exercício intelectualmente lúdico e divertido, sobretudo a partir das 3 da manhã quando a garrafeira começa a ficar esvaziada. Escreve o grande Camilo, nessa preciosa pérola da nossa doméstica literatura que é «Coração, Cabeça e Estômago»:

Comecei por beber licor de hortelã-pimenta, e acabei no absinto estreme. A minha embriaguez era pacífica, e até certo ponto catedrática. Eu me explico. Se o auditório me favorecia, deixava-me ir em discursos sobre a filosofia da história, alternados com outros discursos sobre a história da filosofia. Estas matérias, que a todo o homem, em estado normal, se afiguram áridas e insípidas, a mim pareciam-me deleitosas e lucidíssimas; e os ouvintes, salvo a lisonja, mostravam-se igualmente admirados que instruídos, Não poderemos inferir daqui o facto de de que as ciências de certa transcendência as devemos à alucinação de certas cabeças?

Eis uma concepção de pensamento marcada por um catedrático fogo de artifício mental, atirado para o ar por filósofos que se divertem enquanto escrevem para outros que se divertem enquanto lêem, bem longe da aridez tecnocrática de quem filosofa numa espécie de estirador mental para concretizar o seu projecto. Tivesse o malogrado autor de «Maria, Não me Mates Que Sou Tua Mãe» nascido mais tarde, e talvez a sua infortunada vida pudesse ter como paliativo algum do mais etílico pensamento que encantou os mais ociosos e etéreos espíritos do século seguinte. A funcionária a quem incumbiu a arrumação daquele livro, ao pensar em vários textos de Heidegger, Derrida, Zizek, ou Althusser, terá certamente pensado na ideia de um jogo sem regras e provavelmente bem regado, tanto por quem escreve como por quem lê, ou em coloridos e divertidos festivais argumentativos de quem pensa como quem se penteia por dentro e maquilha as ideias com sofisticados cremes conceptuais para seduzir os espectadores com mais testosterona e progesterona intelectual, de quem trata carinhosamente do seu jardim interior para nele apanhar incautas presas, ávidas do seu perfume com o qual se inebriam, como a abelha com a flor.

Foram estes os únicos livros de Filosofia que encontrei na Book It, sendo grande a escassez, como se pode constatar. Mas se a escassez confrange, os critérios de arrumação temática exorbitam. Entrar naquele espaço e ver os dois livros de Filosofia, um na prateleira dos livros técnicos, outro na prateleira dos tempos livres, é, só por si, uma bem didáctica aula de Filosofia.