21 dezembro, 2016

ACONTECEU EM TORRES NOVAS



No meu percurso entre casa e a escola, passo muitas vezes por um casal de velhotes que costuma estar sentado numa paragem de autocarros ou num muro ali perto a apanhar sol. Embora nunca tenha parado para conversar, cumprimentamo-nos sempre com uma simpatia que vai para além daquela formalidade mecânica de quem vive em de terras pequenas, onde as pessoas estão sempre a tropeçar umas nas outras. A senhora foi costureira, tendo-me feito algumas calças quando era garoto. O marido, cobrador da água, ia todos os meses lá a casa para fazer a contagem e receber o dinheiro. Daí uma certa familiaridade mas nada mais do que isso.

Há dias, após o cumprimento da praxe e já depois de uns metros adiantado, ouço o marido gritar «Sr. professor, sr professor!», com um entusiasmo que me surpreendeu, Volto atrás e pergunta-me, algo ansioso, se a minha casa tinha sido assaltada. Percebendo de imediato o motivo da pergunta, lá disse que não, que foi no prédio em frente, e que a confusão deve ter resultado do facto de também morar um professor nesse apartamento. Foi muito fácil ler no seu rosto uma expressão de alívio, acompanhada de um emotivo «Ainda bem, ainda bem, ainda bem!». Agradeci o interesse mas não resisti a introduzir uma pequena nota de humor em tão dramático assunto, dizendo «Ainda bem para mim, não para o pobre coitado que foi assaltado», ao que ele respondeu, ainda movido pelo recente sentimento de alívio «Ó sr professor, deixe lá, o que importa é não ter sido a sua casa».

Este curto diálogo de uma pacata manhã de província, é todo um programa político. Revela a intrínseca fragilidade de grandes projectos cosmopolitas, universalistas, naturalistas ou racionalistas, trazendo ao de cima a natureza tribal do ser humano ou, como lhe chama Ernest Gellner, o poste totémico ou o baldio comunal. A reacção deste senhor entra na linha, por exemplo, da reacção romântica, e de certo modo reaccionária, sobretudo na Alemanha, aos arrojados propósitos do Iluminismo francês. O Homem? Que coisa é essa do Homem? O Homem não existe, o que existe são povos, grupos sociais com laços de várias ordens, línguas, raízes históricas, costumes, tradições, afinidades culturais, pátrias, enfim, ligações feitas de emoções, afectos, sentimentos, não de abstracções racionais onde as pessoas concretas se diluem.

Para não ter sido eu assaltado, alguém teve de o ser. Um ser humano como eu, por acaso, também professor como eu. A satisfação do senhor ao saber que foi outro o  professor assaltado, não revela uma  pulsão sádica dirigida para alguém que não se conhece. Revela, sim, que os valores se baseiam muito facilmente numa lógica de proximidade. Ele nem sabe se o outro professor tem mais ou menos dificuldades económicas do que eu, se o prejuízo por ter sido assaltado foi maior do que o meu no caso de ter sido eu o lesado. Mas isso não tem qualquer importância. Eu sou o conhecido, o outro é o desconhecido e isso faz toda a diferença, É por isso que o sucesso de um projecto cosmopolita, universalista, racionalista, naturalista, seja de inspiração iluminista, comunista ou até liberal, como se pretende actualmente, pode acabar sempre por esbarrar em problemas económicos, sociais, culturais que o atiram para o caixote do lixo das belas intenções, trocando-se o último andamento da 9ª sinfonia de Beethoven pelos atávicos batuques das cumplicidades tribais, pela lógica do amigo/inimigo, do nós/eles. Insisto, o senhor não ficou directamente contente por ter sido um professor assaltado em Torres Novas. Mas ficou contente por ter sido um professor assaltado em vez do professor que ele conhece, num implícito duelo entre mim e o outro, neste caso com um final feliz, o mesmo não acontecendo com os familiares, amigos e vizinhos do outro professor, que teriam preferido ser eu o assaltado.

Isto é uma simples história, um fait-divers sem qualquer importância. Mas a sua raiz é a mesma que alimenta as árvores do racismo, do nacionalismo, da xenofobia, da rejeição do desconhecido e da diferença, sempre que o medo, a instabilidade, a insegurança fazem valer o seu poder, criando duelos onde antes até podia existir amizade ou apenas uma inofensiva indiferença.