02 dezembro, 2016

A QUEDA DE UM ANJO

Federico Fellini | Amarcord

São muitas, algumas célebres, as histórias de pessoas que, sob a pele de cordeiro, escondem uma terrível e perversa identidade, descoberta demasiado tarde em situações trágicas. O fenómeno está mais que estudado pela Psicologia, popularizado pelo senso comum, exemplarmente dramatizado pelo cinema e literatura. O costume: o tipo era uma simpatia, amigo do seu amigo, um bom compincha lá no café, entre umas cervejas e o futebol na Sport TV, a vizinhança só tinha a dizer bem dele e aos familiares nunca lhes passou pela cabeça qualquer necessidade de falar sobre Kevin. Depois, desafiando a incredulidade e perplexidade de todos, vêm-se a descobrir não sei quantos cadáveres enterrados no quintal, ou quem diz isso, diz crianças vítimas da sua perversa e impenitente predação, ou a mulher e os filhos friamente assassinados antes de incendiar a casa.

Mas o que dizer de uma aluna que me escreve isto num teste sobre Freud: «O estádio fálico é a fase do desenvolvimento afetivo, pois é quando os órgãos genitais estão localizados no centro da atividade»? Isto foi escrito pela mais improvável e inverosímil rapariga: tímida, discreta, inocente mesmo, enfim, a última pessoa que eu imaginaria a escrever esta desaforada poção de lascívia. Trata-se, por isso, de um fenómeno oposto ao referido anteriormente. Enquanto no primeiro vemos lobos escondidos sob as peles de cordeiros, neste, pelo contrário, o que vemos é uma inocente ovelha escondida sob a pele de uma loba uivante. Começa pela ideia, tremenda, de o desenvolvimento afectivo estar ligado a qualquer coisa de fálico. E, como se isso não bastasse, depende da centralidade dos genitais. E que centralidade. Repare-se no carácter intransitivo de 'actividade'. Não é uma actividade 'de' ou 'para'. Não, é 'a' própria actividade, a actividade propriamente dita, a actividade em si mesma, a actividade das actividades, qual versão degenerada de um sublime e carnalmente depurado cântico dos cânticos. E tudo isto para explicar o zénite da afectividade. Qual mãe, qual pai, qual ama, qual educadora de infância, quais avós, qual mano ou manos: desenvolvimento afectivo, a suprema afectividade, é presumir os genitais no centro 'da' actividade.

Ora, enquanto no primeiro fenómeno são os outros que se devem proteger dessas pessoas diabólicas, no caso desta pobre rapariga, é ela que tem de ser protegida dos outros. Costumam os alunos dizer que um dia depois de fazerem um teste já se esqueceram da matéria que ainda na véspera sabiam tão bem. Não se pode dizer que esta aluna soubesse propriamente a matéria. Mas, para seu bem e tranquilidade, queira Deus que se esqueça rapidamente do pouco que julga saber.