01 dezembro, 2016

A MARGEM



Sou iberista, daí o dia de hoje, tal como a implantação da república, ser a comemoração de um drama nacional. Como considero injusta, já que Portugal permaneceu como nação, a perda de Olivença. Todavia, já não faz sentido discutir a independência de Portugal face a Espanha, discutir o problema da 'monarquia vs república' em Portugal, ou discutir o destino de Olivença. 

Podemos discutir os princípios, e eu gosto de discutir os princípios. Acontece que a história é um rio cuja corrente é demasiado forte para os frágeis braços dos princípios. Discuti-los, enquanto a história nos arrasta sem apelo nem agravo, é ficarmos na ridícula posição dos dois jogadores de xadrez perdidos no seu jogo, ou na célebre discussão sobre o sexo dos anjos, enquanto Constantinopla cai nas mãos dos turcos. Acima da verdade estão os deuses e o rio corre sem sabermos muito bem porquê e para quê, para um mar que fica muito longe. Quis a história que alguns países existissem e outros deixassem de existir. Quis a história que alguns países permanecessem monárquicos, outros republicanos. Como quis a história que algumas cidades mudassem de país. A história quer, e o que ela quer que tenha de ser, tem muita força. Daí que enlaçar ou desenlaçar as mãos não passe de um inocente jogo de xadrez onde tanto faz ganhar como perder. O melhor mesmo é viver o presente sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz, e ficar na margem, vendo a corrente do rio, sem precisarmos de procurar a Ave de Minerva, cujas asas são tão pesadas que nunca chega a levantar voo. A história é dos peixes mas esses são demasiado surdos para qualquer tipo de sermão.