03 novembro, 2016

UM ANTROPÓLOGO EM MARTE

[Suddenly Last Summer]

Se me pedissem para imaginar um daqueles pesadelos que fazem uma pessoa acordar em pânico, a gritar por socorro, o que me vem logo à cabeça é um asilo psiquiátrico do século XIX, onde doentes, depois de prenderem e amordaçaram médicos e enfermeiros, me obrigam a passar horas sob um ruído de música infernal do século XXI, organizadas por eles, para se divertem com expressões e movimentos insanes em três apocalípticos concertos em simultâneo. Se só de pensar nisto se fica ansioso, imagine-se o que seria vivê-lo na realidade. Seria, não, é, pois esta realidade quase existe: a minha escola durante a campanha eleitoral de três listas para a Associação de Estudantes.

Quem desejar conhecer o pensamento político de Platão, deve começar por ir à minha escola em período de campanha eleitoral para assistir à festa da democracia, que o filósofo odiava,  no seu mais puro e democrático esplendor: barulho ensurdecedor em cada um dos corners das três listas, com a garotada (num texto chamado Górgias, Platão compara o povo a crianças manipuladas com guloseimas) a dançar à frente deles conforme a preferência pelo tipo de barulho ensurdecedor e a cor das t-shirts oferecidas pelas das listas para dar um toque ainda mais folclórico e tribal ao ambiente democrático que por lá se vive. Ontem, ao passar por aquela  moderna ágora, legítima, embora espúria herdeira da velha ágora grega, onde a democracia assume toda a sua plenitude eleitoral, cheguei a recear ter estuporado o meu ouvido direito com um projéctil sonoro vindo de uma coluna junto à qual, entre outras, os candidatos passam longos momentos a explicar os seus programas eleitorais com os decibéis da música democraticamente martelada nos ouvidos dos eleitores.

Apesar do susto, só tenho de me sentir gratificado por este momento de elevado espírito democrático. Se a escola deve preparar os alunos para o mundo, nada melhor do que este tipo de campanha eleitoral iniciática para um dia mais tarde continuarem a viver este racional espírito democrático nos futuros comícios cheios de música e bandeirinhas, nas arruadas cheias de beijinhos e abraços que incluem crianças ranhosas e peixeiras com restos de escamas nas luvas para gáudio de políticos urbanos que, ciclicamente, descem ao povo em democrática expedição. E se aqueles, junto do povo ululante, deverão sentir-se uma espécie de antropólogos na Nova Guiné, eu, como ser racional que tento ser, sinto-me, nestes dias de pleno e intenso espírito democrático na minha escola, como Oliver Sacks, um antropólogo em Marte.