12 novembro, 2016

SOLOS



Abel Salazar [Notas de Filosofias da Arte] é tão compreensivo e até condescendente com as imperfeições técnicas de Franz Hals, como terrivelmente implacável com a perfeição clássica de Jacques-Louis David da qual, manifestamente, não gosta. Para dar cabo do pintor francês escolheu o seu célebre Rapto das Sabinas.

O que diz ele de tão negativo a respeito do quadro? Que, no meio de uma situação tão humanamente dramática como a que está a ser retratada, lhe falta vida, fúria, tensão, emoção, sangue, espontaneidade nos movimentos. Tudo ali foi estudado e preparado apenas para, com base numa rigidez formal, mostrar a beleza escultórica de alguns corpos e não para traduzir o verdadeiro sentido da acção. Tem toda a razão. São pintores como ele, acrescento eu agora, que ajudam a perceber a reacção romântica que exacerbará os ânimos e as tensões arteriais dos europeus ilustrados e, por arrasto, os europeus em geral, fazendo desta vez Marx ter razão com aquela ideia de que a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante.

Mas vai mais longe Salazar: «Cada uma das figuras, nesta composição, seria um belo estudo; reunidas nesta cena teatral, não se integram numa síntese de efeito; concentram-se no seu papel, isolando-se na exibição plástica». Quer dizer, estamos perante uma cena colectiva, mas onde cada figura parece suspensa na sua própria individualidade. Estão fisicamente próximas e até envolvidas. é verdade, mas, no fundo, ensimesmadas, concentradas nos seus próprios gestos, presas a uma teatralidade pessoal que acaba por se sobrepor ao drama colectivo em jogo. Como se o pintor quisesse ser Deus que pega no comando da televisão, prime a tecla que pára a imagem, ficando de repente tudo suspenso, em silêncio, numa rigidez egípcia e em que cada personagem se isola de todas as outras, fechando-se no seu próprio mundo pessoal. Também aqui volta a ter razão. Creio, no entanto, que este último defeito acaba por, ironicamente, enriquecer o sentido narrativo e psicológico do quadro.

Para ver se me safo com isto, recorro a um dos aspectos mais impressionantes de Guerra e Paz: o modo como Tolstoi alterna entre a grandiosidade épica e a intimidade psicológica de algumas personagens. O romance mostra-nos a história ao vivo. Uma história feita de massas, multidões, grandes movimentações sociais e políticas. Mas, depois, através de uma espécie de zoom fotográfico, deixamos a grande batalha, a intriga política, o salão, para entramos cada vez mais na consciência de cada um dos seus actores sociais deitado na escuridão da sua cama antes de adormecer. E, então, na intimidade da consciência de cada um, percebemos que cada consciência é um mundo próprio, fechado sobre si, auto-justificado e auto-motivado. A história é feita por milhões de eus, uns, protagonistas, outros, actores secundários. Mas cada um entregue a si próprio, sobrepondo o seu mundo individual ao mundo em geral. Como se a história fosse um concerto para piano e orquestra em que, neste caso, todos se sentem o solista e não apenas mais um músico anónimo da orquestra. Paradoxalmente, ou talvez não, sentindo-se solistas, ficarão mais sós do que numa dinâmica colectiva na qual cada um se sente uma peça que só faz sentido em relação com as outras peças. David, neste quadro, sem querer mostrar isso, respeitando apenas as rígidas regras da academia, acabou por consegui-lo.