17 novembro, 2016

O BALÃO


Dizia-me há meses a mãe de uma aluna, falando um pouco da sua vida pessoal, ter sido vítima de violência doméstica por parte do ex-marido e pai da minha aluna. Feitas as despedidas, comecei a pensar no modo como esta mulher, décadas atrás, se teria referido ao facto de o marido lhe bater. Diria que o marido lhe batia, que era violento mas nunca embrulharia os seus actos no conceito de 'violência doméstica'. Isto, porque o conceito de 'violência doméstica', sendo recente, não poderia ser invocado décadas atrás.

A minha questão agora é a seguinte: podemos dizer que só existe violência doméstica a partir do momento em que existe o respectivo conceito? À primeira vista, parece não haver necessidade de um conceito para que a coisa exista, dando razão ao historiador Lucien Febvre quando diz que muitas vezes a coisa em si existe antes da palavra dela ter sido inventada. Porém, sinto-me tentado a responder que sim, que só começa a existir violência doméstica a partir do momento em que existe o respectivo conceito. Décadas atrás, uma mulher poderia dizer que o marido lhe batia, maltratava, esbofeteava, esmurrava, pontapeava. Poderia dizer que era bruto, tinha mau feito, e sim, dizer também que era violento. Em suma, todo o tipo de descrição possível e imaginária a respeito de um comportamento violento. Porém, ao não arrumar toda essa descrição no conceito de 'violência doméstica', o que se passa na sua consciência é diferente do que se passa na consciência de uma mulher que o faz. Na ordem puramente descritiva e objectiva dos factos, o que se passa com a primeira mulher é exactamente o mesmo que se passa com a segunda. Uma bofetada dada sob as mesmas condições e circunstâncias assume sempre o mesmo sentido. Já num plano subjectivo não é assim. Para a primeira mulher, uma bofetada pode ser brutal, violenta, injusta, repugnante, podendo levá-la a odiar o marido. Quando assim é, o seu esquema mental está ao nível do pensamento concreto e da adjectivação, o mesmo nível de uma criança quando diz 'bom' ou 'mau', 'bonito' ou 'feio'. Para a segunda mulher, podendo ser a bofetada igualmente adjectivada como brutal, injusta, repugnante, o simples facto de pensar nela como acto de violência doméstica, muda a sua percepção do facto, permitindo um enquadramento moral, social, cultural e até jurídico dessa bofetada, estando já ao nível do pensamento abstracto, ao contrário do primeiro caso, próximo das primárias intuições de uma criança ou mesmo de um animal maltratado pelo dono.

Embora não pareça, não é a violência doméstica que aqui me traz. Lembrei-me apenas deste episódio pelo facto de 'pós-verdade' ser a palavra do ano para os dicionários Oxford. 'Pos-truth' serve para traduzir situações em que os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais. Ora, enquanto facto puro e duro não se trata de nada de novo. Encontramos isso já na Grécia e Roma antigas e tem sido sempre assim até hoje. Claro que dispomos de palavras/conceitos para situações em que os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos emocionais e as opiniões pessoais: demagogia, manipulação, 'lavagem ao cérebro', assim como um generoso conjunto de falácias informais que ajudam a tomar consciência do fenómeno. Mas o facto desta palavra composta assumir expressamente a ideia de verdade relegada para um plano secundário, poderia ajudar a formar uma melhor consciência do fenómeno, levando as pessoas a defenderem-se mais facilmente do fenómeno.

Mas não sejamos ingénuos. Quando se trata de crenças, seja nas ideologias, nas religiões, nas idolatrias várias, no desporto, a verdade será sempre o que menos importa. Para dois adeptos de clubes diferentes que jogaram entre si, discutir o fora de jogo, o penalty, se é mão na bola ou bola na mão, se foi bem ou mal expulso, nunca será uma busca da verdade e de uma consciência objectiva dos factos. E o mesmo se passa nas outras áreas onde a fé, as emoções, as paixões e os interesses são o que mais conta. Muitas mulheres poderão ser salvas graças ao conceito de 'violência doméstica', uma vez que ganham uma maior consciência da sua triste e vil situação, dando razão ao jornalista Karl Kraus quando diz que a linguagem é a mãe, não a criada do pensamento. Já nas referidas áreas, nunca seremos salvos de nós próprios, pois o pensamento, o verdadeiro pensamento, é o que menos importa. Até porque em muitos casos nem chega sequer a existir pois é mais o que nos separa do que aquilo que nos une, defendendo cada um o que é seu. Falar ou pensar (chamemos-lhe assim), neste caso, não é mais do que passar o tempo a encher balões que naturalmente irão rebentar.