09 novembro, 2016

NOITE DE CRISTAL


Não houve hoje aula onde os alunos não mostrassem o seu pânico perante a vitória de Trump. Uma colega, assustada e incrédula, veio ter comigo em busca de uma explicação para tão bizarro facto, querendo transformar-me num oráculo para ler o futuro. Desdramatizei o assunto em todas essas situações, dando pequenas e humildes lições de Realpolitik, mostrando ainda que Donald Trump não irá ser propriamente um Luís XIV governando a América a partir de uma Casa Branca versalhesada.

Eu, não sendo de história, sou especialmente sensível aos seus sortilégios, apetecendo-me mais lembrar a Noite de Cristal, que faz hoje, dia 9 de Novembro, 78 anos (os factos históricos, com o tempo, tendem a transformar-se em ideias, conceitos, abstracções mas, por estranho que pareça, aconteceram em dias específicos, como o de hoje que, já agora, está meio chuvoso e melancólico, talvez igual àquele em que os Maias foram habitar o Ramalhete), do que dedicar-me ao exercício de pensar no que vai acontecer com a próxima administração norte-americana, assunto sobre o qual me parece haver demasiado fumo para a quantidade de fogo que arde sem se ver.

Há dias, dei por mim a reparar na quantidade de vezes que falo do nazismo nas minhas aulas. Se eu tivesse um eterno aluno que assistisse desde sempre a todas elas, iria pensar que tenho uma relação obsessiva e doentia com o assunto. Provavelmente terei. Estava eu a tentar perceber isto quando me lembrei de uma criança que tinha um medo quase caricato de fenómenos naturais. Ouvia falar de um terramoto não sei onde e entrava logo em pânico, fazendo perguntas de 30 em 30 segundos sobre terramotos. Ouvir o vento soprar ou assobiar era outra drama, dando frenéticos saltinhos com as mãos nos ouvidos. Mesmo depois de lhe explicarem que o vento não era assim tão forte para se ter medo, não desistia, garantindo que o vento lhe dizia: «Aaaanda caaaá....Aaaanda caaaá...Aaaanda caaaá...», não lhe dando qualquer sossego. 

Admito que a minha obsessão face ao nazismo seja algo infantil como a do garoto. Mas também é verdade que quando a história se lembra de tremer ou de assobiar ventos ciclónicos, os resultados, tal como nas catástrofes naturais, também não são bonitos de se ver. A Noite de Cristal foi há 78 anos. A Noite de Cristal foi hoje.