11 novembro, 2016

NEW SKIN FOR THE OLD CEREMONY

[Imagem: Robert Altman | A Noite Fez-se Para Amar]

A palavra alemã para "curiosidade" é muito mais engraçada do que a portuguesa. Decompor "neugier" dá qualquer coisa como desejo ou cupidez do que é novo. Que uma criança seja extremamente curiosa eu ainda consigo perceber. A sua natural curiosidade é um importante impulso para poderem ser preenchidas com conteúdos que as enriqueçam. Que os adultos sejam tão ávidos pelo que é novo já me faz uma certa confusão. Não consigo deixar de ficar surpreendido com  as movimentações sociais geradas quando aparece qualquer coisa de novo. Seja um carro, um centro comercial, um gadget, um sistema operativo, um disco, um livro, uma exposição, um restaurante, um bar, eu sei lá, tudo o que possa ajudar a compor a ideia de dolce vita graças ao efeito psicológico da novidade. Sinceramente, não consigo entender esta cupidez pela Vita Nuova que tão depressa se faz velha.

Gosto bem mais de velhos cemitérios, de abadias em ruínas, de uma pintura com 500 anos, dos mesmos versos de sempre, de uma velha escada de madeira, da ornitológica musicalidade do Bussaco, do mar sempre eterno e fiel a si mesmo, do ladrar de um cão vindo de uma quinta numa manhã de outono, de um relógio parado. E entre tantas e tantas outras coisas que, sendo tão velhas, fazem-me sentir sempre novo, ao contrário de tantas e tantas coisas novas e que rapidamente me fazem sentir velho, das canções de Leonard Cohen, que ainda ontem estive a ouvir, juro pelos meus filhos, sem saber que tinha morrido. Apetecia-me dizer aquela asneira que sai quando entalamos o dedo numa porta ou o Benfica sofre um golo. Mas limito-me a dizer que irei continuar sempre a ouvir-te e a chorar por dentro contigo, Leonardo.