05 novembro, 2016

MORS TUA, VITAMINA

Katia Chausheva | Persephone's Dress


Passamos pelas coisas sem as ver,
gastos, como animais envelhecidos:
se alguém chama por nós não respondemos,
se alguém nos pede amor não estremecemos,
como frutos de sombra sem sabor,
vamos caindo ao chão, apodrecidos.
Eugénio de Andrade, As Mãos e os Frutos


Hoje, no mercado, peço dois quilos de romãs. Diz-me a velhota que as romãs fazem muito bem à saúde, que se deve comer um romã por dia, uma sobrinha com cancro foi aconselhada a fazê-lo e melhorou bastante, e que um senhor com cancro na próstata, que se preparava para fazer quimioterapia, começou a comer romãs todos os dias e curou-se só com isso. Bom dia, até à próxima, dirijo-me a outra banca para comprar uns suculentos e rosa-alaranjados dióspiros que ainda ao longe me atiçavam o desejo. Diz-me o velhote que uma doutora, médica mesma e cujo marido também é doutor, médico mesmo, vai lá sempre comprar dióspiros, e dizem eles que os dióspiros fazem muito bem à saúde.

Por momentos, senti-me não no mercado para comprar frutas e legumes mas numa farmácia. Eu acho muito bem que as pessoas se preocupem com a saúde. Eu também me preocupo e se há coisa na vida que não me apetece é morrer. Mas esta doentia obsessão com alimentos que fazem bem à saúde, apesar de cultivada por médicos, jornais, revistas, sites, descobertas científicas da nossa mais fina modernidade, não deixa de ser um enorme atavismo. Leva-nos até ao tempo das cavernas em que a vida não passava de uma luta pela sobrevivência, em que a morte e a doença espreitava a cada minuto, em que a «consciência de si» quase se reduzia a uma consciência da nossa radical fragilidade e finitude.

Dizia um filósofo alemão do século XIX chamado Schelling [Sobre a Essência da Liberdade] que «A angústia da vida desloca a criatura do seu centro» Eu penso nos velhotes do mercado que me embrulham as romãs e os dióspiros num colorido discurso clínico que, felizmente, dispensa receita médica, e o que me vem à cabeça é a perda de um centro. Para que serve a saúde? Sim, para que serve? Pronto, a saúde é muito importante e basta uma reles amigdalite (e sabe Deus o que eu já passei com amigdalites) para o lembrar. Mas será a saúde um bem em si mesmo ou simplesmente um meio para um bem superior? Nós não nascemos para ter saúde, não vivemos para ter saúde, não andamos aqui no mundo para ter saúde, e não é para termos saúde que não queremos morrer. Ter saúde, como um martelo que espeta o prego e o prego que permite pendurar o quadro na parede, só faz sentido se servir para alguma coisa, se fizermos alguma coisa com ela, sendo esse, sim, o verdadeiro centro. Pelo contrário, toda esta atávica angústia face à saúde é como nos centrarmos na eficácia do martelo e na qualidade do prego, esquecendo o quadro na parede.

Eu quero lá saber se uma romã ou um dióspiro fazem bem à saúde. Eu desejo é a romã e o dióspiro porque uma romã é uma romã é uma romã é uma romã, e um dióspiro é um dióspiro é um dióspiro é um, dióspiro, esses diáfanos objectos de desejo que Perséfone nos deixa ciclicamente antes do seu anual exílio. Onde, um dia, definitivamente exilado, apodrecido e sem sabor, logo após uma curta ou prolongada doença, me esquecerei de os desejar.