07 novembro, 2016

HAMLETIANA


Sou dos que pensam que quando a esmola é grande o pobre desconfia. Daí não entender por que prezamos tanto a liberdade com que, ao contrário dos outros animais, fomos dotados pelo Criador. Não estou a pensar na liberdade civil ou política, o direito de querer fazer A em vez de B ou de votar em A em vez de B, mas no seu sentido mais metafísico: termos um livre arbítrio que nos permite fazer A em vez de B ou recusar fazer A em vez de B.

Nós só não nos imaginamos sem liberdade porque estamos habituados a tê-la. Se não a tivéssemos não sentiríamos a sua falta. Por exemplo. deverei sentir pena por não conseguir apreciar um arraial minhoto, um jogo de críquete ou uma daquelas estúpidas instalações contemporâneas que se vêem por aí nos museus e galerias de arte? Não, não consigo ter pena por não ter o que não quero ter, nem cuja falta sinto. Só tenho pena de não ter o que quero ter, o que desejo, aquilo de que preciso. Do que não desejo, do que não quero ter e do que não preciso, não, não tenho qualquer pena por não ter. Se as árvores falassem e eu lhes perguntasse se sentiriam pena por não serem livres, não se poderem deslocar ou por uma macieira não poder dar laranjas em vez de maçãs, elas iriam certamente responder que não. Porque uma árvore é apenas o que é, e se tivesse consciência de si teria aprendido a ser apenas o que é, do mesmo modo que a natureza não ficaria triste por ser Outono em vez de Primavera ou época de sementeiras em vez de colheitas, porque apenas seria o que é.

O ser humano ufana-se de ser livre, de ser a única peça da criação que dispõe da liberdade  de poder ser, de desejar, de precisar.  Eu não. Não posso dizer que tenha inveja das árvores pois as árvores não têm consciência de si e um ser humano sem consciência de si não é bem um ser humano e eu gosto de ser um ser humano. Mas Deus não precisava de ter sido tão sacana connosco e bem nos podia ter facilitado mais a vida, restringindo as nossas possibilidades de desejar, as nossas possibilidades de ter e as nossas possibilidades de ser. Em cada possibilidade de ser resultante da nossa vontade, submergem implacavelmente infinitas possibilidades de não ser, o que faz com que por causa da liberdade sejamos a única peça da criação que, por vontade própria, é mais o que não é do que aquilo que é.