02 novembro, 2016

EM BUSCA DO TEMPO NÃO PERDIDO



Ao passearmos por um cemitério, a nossa relação com pessoas que morreram há 50 ou 60 anos não é igual à relação com alguém que morreu há meia dúzia de dias, semanas ou meses. É normal. Normal, porque projectamos o nosso tempo no tempo do próprio morto. Passar pela campa de alguém que morreu há 60 anos é como passar por alguém que já morreu dentro da própria morte. Já uma pessoa que morreu há poucos dias ou anos, permanece viva, uma vez que, apesar de morta, viveu uma vida que coincidiu parcialmente com a nossa.

Porém, esta discriminação sentimental face aos mortos, como se houvesse mortos que merecem mais a nossa compaixão do que outros que nos deixam mais indiferentes, é injusta. Injusta, porque na morte não há tempo. O tempo, essa coisa dos anos, meses, semanas, dias, horas ou minutos, faz parte da vida e não da morte. A morte é temporalmente informe, uma espécie de buraco dentro do qual só existe uma eternidade   onde não existe diferença entre 2500 anos e um simples minuto.

A nossa memória de alguém que morreu há dois dias é naturalmente diferente da  nossa memória da pessoa que morreu há 2500 anos, do mesmo modo que a vida desta nada tem que ver com a vida da primeira. A memória e a vida são feitas de tempo, mas nesse buraco sem tempo que é a morte, não há longe nem perto, não há passado, presente ou futuro, não há muito nem pouco.
Quando passeamos por um cemitério, a sua superfície continua a ser uma superfície moldada pela consciência dos vivos que, com a sua consciência do tempo, vão arrumando os mortos no calendário. Às escuras, silenciosas e oceânicas  profundezas da morte estão sempre, todos eles, a acabar de chegar, como se tivessem sempre lá vivido.