16 novembro, 2016

É A FELICIDADE, ESTÚPIDO!

[Lewis Hine | Família italiana em Ellis Island]

Vale a pena esta entrevista de Martin Wolf, a qual, embora centrada em aspectos de natureza política e económica mais conjunturais, remete para dois grandes desafios que devemos ter pela frente: as magnas questões da distribuição da riqueza e o sentido da vida. Eis a filosofia política e a metafísica a irromperem na agenda da política e da economia, as quais deixam assim de estar entregues a si próprias.

O que diz o comentador do Financial Times lembra-me aquela história em que um filho diz ao seu pai muito rico que só pode ser feliz se casar com Maria, uma rapariga pobre. O pai, perplexo e ansioso, pergunta-lhe "- Ser feliz?! E o que ganhas tu com isso, meu filho?!". Olhando para a economia, e economia tem que ver com a criação e gestão da riqueza, fico a pensar no modo como tantos empresários, políticos, economistas, sentirão a mesma perplexidade daquele pai rico: afinal, para que serve a felicidade? Que importância tem a felicidade? O que se ganha com a felicidade? O que vale a felicidade perante dezenas de gráficos económicos e financeiros? A questão do sentido da vida passa pela da felicidade. Não por acaso, Aristóteles, homem que muito reflectiu sobre questões políticas, ao analisar a questão do supremo bem, o fim último para o qual tudo se deve dirigir como um rio para o mar, remete-o para a felicidade ('eudaimonia') e a vida boa.

Naturalmente que não cabe ao Estado gerir a felicidade das pessoas ou impor um sentido às suas vidas. A felicidade será sempre, antes de mais, uma questão que deve ser gerida pessoalmente e de um modo pluralista. Como bem se sabe, meter-se o Estado na vida das pessoas para as salvar de si mesmas, costuma trazer pesadelos. Mas entregar a política e a economia a si mesmas sem fins superiores que as norteiem, significa desvirtuar as respectivas essências. Parafraseando livremente um conhecido judeu mas quase sempre esquecido, o homem não foi feito para a política e a economia mas antes a política e a economia para o homem. Pensa-se muito em economia, fala-se muito de economia, debate-se muito a economia. Claro, é incontornável para um país como para qualquer pessoa que precisa de bem governar a sua casa entre deveres e haveres. Mas também faz falta não perdermos de vista o que pensavam os gregos, homens como Platão, Aristóteles, Epicuro, assim como todos os seus filhos, netos e bisnetos, alguns deles chamados Adam Smith ou Stuart Mill, que foram reformulando os seus pensamentos ao longo dos séculos. O que deveria ser a economia senão uma ciência da felicidade?