06 novembro, 2016

A PERSONAGEM DESCONHECIDA

Thomas Eakins | Estudo de Movimento, 1885

Em nada podemos estar firmes, pois vivemos no meio de mil revoluções diversas: as idades, e a fortuna continuamente combatem a nossa constância; tudo consiste em representação que começa não para existir, mas para acabar, menos para ser, do que para ter sido. As cousas parece que nos vão fugindo, até que nós vimos a desaparecer também. Matias Aires, Reflexões sobre a Vaidade



Hawthorne e Melville não foram apenas grandes amigos, criaram também duas das personagens mais enigmáticas e inquietantes da literatura, cujas histórias foram cunhadas com os seus próprios nomes: Wakefield e Bartleby. Várias interpretações são possíveis de ambas as personagens. Começando por Wakefield, que conheci primeiro, já lá vão uns bons anos, tornou-se desde logo, para mim, a mais eloquente expressão da invisibilidade humana. 

Quem é Wakefield? Um pacato londrino que informa a mulher de que se irá ausentar uns dias por razões profissionais. Só que vai mas não volta, desaparecendo sem deixar rasto. E para onde vai Wakefield? Para a Nova Zelândia? Para uma obscura aldeia africana? Uma recôndita quinta em Sintra? Frio, muito frio, muda apenas para uma rua a seguir à sua, a partir da qual irá a observar a mulher sem sem visto por ela. Isto, durante 20 anos, até que um dia regressa a casa com o mesmo sorriso tranquilo com que a tinha deixado anos antes. Deixemos o escritor explicar que tipo de homem era Wakefield: um homem sem «instintos conjugais», com uma enorme «acalmia afectiva», «O mais constante dos maridos, em razão de uma espécie de indolência que o poupava a oscilações de humor», «Mantinha a cabeça ocupada com divagações indolentes», enfim, «Os pensamentos que tinha só raramente encontravam vigor para se fazerem palavras, e redundavam, inevitavelmente, em nada». Entretanto, durante o seu exílio interior, embora misturado com a multidão, descobre que a vida em Londres continua igual, o mundo continua igual, a própria mulher continua a ter uma vida normal. De novo, Hawthorne, o seu criador: «Pobre Wakefield! Mal sabes tu o pouco que representas neste mundo».

Wakefield, apesar de toda a sua carne e osso, é um homem feito daquela invisibilidade que anula grande parte da humanidade, como um nevoeiro tóxico que apaga o rasto das acções de qualquer pessoa vulgar. Um bom funcionário cumpridor e responsável. Um bom cidadão. Um marido respeitador da mulher. Mas nada mais do que isso. Wakefield existe, mas atravessa a vida como uma fantasma.

Anos depois, ao conhecer Bartleby, caí na tentação de pensar que a natureza espectral de Wakefield teria de ser ultrapassada pela de um homem que apenas diz «I would prefer not to» e que acaba por morrer nessa condição. Bartleby representa a absoluta auto-anulação, desistência, a mais extrema perda de consistência ontológica. Trata-se, porém, de uma ilusão que logo fiz dissipar. A radical espectralidade de Bartleby torna-o, paradoxalmente, numa personagem absoluta, com uma visibilidade ímpar, densa, maciça, que nos convoca para a sua dissolução e em cuja direcção, como uma personagem de Kafka, não é possível deixar de dirigir o olhar. Bartleby será tudo menos um homem vulgar, ficando esse triste estatuto reservado para Wakefield. Wakefield continuaria a ser para mim o campeão da invisibilidade, sem rivais à altura, incluindo o homem de Porlock.

Há dias, porém, fui obrigado a rever a minha classificação, tendo descoberto alguém que destronou o desonroso estatuto de Wakefield. Aconteceu num conto de Nabokov chamado «La Veneziana». Não vou aqui falar do conto mas apenas de um capítulo, que não chega a uma página, que serve apenas para introduzir uma personagem da qual nada se sabe, o velho guarda de um castelo pertencente a um coronel onde numa dada noite acontecem coisas estranhas. E o que faz a personagem? Nada. Enquanto guarda viu qualquer coisa de estranho mas resolveu nada fazer. Ora, este brevíssimo capítulo que apenas serve para dizer que há um velho guarda que nada fez, nada disse, nada mudou, não serve absolutamente para nada, não passando de um parêntesis inútil, supérfluo, quase a fazer lembrar aqueles jornalistas televisivos que fazem um directo a meio da noite só para dizerem que não está a acontecer nada. Ou melhor, serve para o escritor, pouco depois de o começar, terminá-lo, dizendo: «Assim, o simpático, inócuo velhote, qual anjo-da-guarda, atravessa por momentos esta narrativa e logo desaparece nos domínios nebulosos de onde foi evocado por um capítulo da pena». Eis a ironia de Nabokov no seu melhor, a sua destreza para misturar o ser e o nada, o visível e o invisível, o que é e o que poderia ter sido.

Wakefield, apesar de tudo, é uma personagem que acompanhamos algum tempo, onde se chega a desenhar uma subjectividade, um mundo interior. Este guarda, porém, apesar da sua pura exterioridade, ou antes, por causa da sua pura exterioridade, é, por excelência, a personagem-que-não-teve-força-para-chegar-a-sê-lo, uma personagem que como as almas penadas, pode emergir no real, ainda chega a tocar levemente na sua superfície, mas sem nunca chegar a deixar uma delével marca, um pequeno rasto, uma sombra fugaz, num mundo onde, talvez por rodar sobre si próprio no tempo, tudo foi feito para nele escorregar.

Herman Melville termina o seu Bartleby com a célebre frase: «Ah, Bartleby! Ah, humanidade» Confesso a minha tentação de deslocar a frase para o velho guarda do conto de Nabokov. O problema é que nada dele, nem sequer o seu nome, saberei dizer para o invocar, ainda que esse nome desconhecido seja o mais vulgar de toda a humanidade.