19 outubro, 2016

VIAGENS NA MINHA TERRA


Após múltiplas viagens pelos lugares mais recônditos do planeta, Lemuel Gulliver terá chegado à conclusão de que existem mundos que, sendo para nós risíveis, exóticos, bizarros, não são vistos desse modo por quem neles vive. É verdade que nem Gulliver, nem tais lugares, existiram de facto, mas a experiência que temos da realidade, a começar pela nossa, não andará longe disso. Aliás, o objectivo da sátira é precisamente obrigar o homem inglês ou europeu, vá, ocidental, a confrontar-se com a sua própria estupidez.

A imperfeição do mundo começa na terrível e opressiva fatalidade de terem que conviver, lado a lado, pessoas estúpidas e inteligentes. O mundo seria perfeito se existissem apenas pessoas estúpidas ou apenas pessoas inteligentes. Um mundo apenas de pessoas estúpidas seria tão perfeito como um mundo de anémonas ou de percevejos. Nós detestamos percevejos mas eles lá vivem as suas vidinhas, seja lá o que isso for, de acordo com o que a natureza fez deles. Também um mundo só de pessoas inteligentes seria perfeito, como é perfeito o mundo dos Houyhnhms, os cavalos sensíveis, educados e inteligentes que olham para os humanos yahoos com a mesma repugnância que nós dedicamos aos percevejos.

Uma escova de dentes é tão perfeita como uma pulseira de oiro, possuindo cada uma delas a sua própria e incomensurável perfeição, pois não se lavam os dentes com pulseiras, nem se enfeita o pulso com escovas de dentes. Não tem qualquer mal, faz mesmo parte da evolução haver o Cro-Magnon e o Homo Sapiens. O problema surge a partir do momento em que o Cro-Magnon deseja viver no quintal do Homo Sapiens, pois a estupidez do primeiro é inconciliável com a inteligência do segundo. Tentar conciliá-las é tão absurdo como confrontar um jogador de hóquei em patins com um jogador de basquetebol, jogando cada um o seu próprio jogo. Quem ganha, quem perde? Nem sequer há aqui lugar para uma quantificação. São incomensuráveis, uma vez que não se trata de uma questão de grau (como é o caso de um jogador de basquetebol que é melhor do que outro jogador de basquetebol) mas de natureza, uma natureza da qual cada um deles se reclama. Muito bem. Como jogar, quando no basquetebol não há patins e balizas e no hóquei não há sapatilhas e cestos? O que festeja um jogador de hóquei em patins quando marca um golo, nada diz a um jogador de basquetebol pois é de uma natureza e de uma linguagem que este não entende. No final, cada um deles chega às respectivas conclusões acerca da estupidez e inadequação do outro à realidade.

Infelizmente, é também isso que acontece num mundo de gente estúpida e inteligente, embora sem um árbitro neutro que decida quais as regras que devem ser cumpridas. Isso faz com que a estupidez seja tão legal e socialmente legítima como a inteligência, apesar de muitas das consequências dela serem repulsivas e, nalguns casos mesmo, criminosas. Vivem assim lado a lado, iguais num mundo de pessoas supostamente iguais, apesar de iguais terem muito pouco. Infelizmente, juntar a perfeição da estupidez à perfeição da inteligência não dá uma perfeição ainda maior. Na verdade, acontece muitas vezes que somar implique subtrair. Dá, digamos, uma valente dor de cabeça antropológica que teima em resistir ao longo de um processo histórico que teve o seu início há muitos milhares de anos e que nunca terá um fim.