23 outubro, 2016

TEMPOS LÍVIDOS


A sinonímia pode ser encarada de modo diferente. Uma coisa é olhar para a língua de um modo apenas funcional, reduzindo-a à sua máxima simplicidade, outra coisa é vê-la como exercício de seres racionais, em virtude da qual se podem exprimir pensamentos, emoções, sentimentos, ou descrever objectos, paisagens e factos, exprimindo, de um modo mais subtil e complexo, a 'vida do espírito'. Não por acaso, Hannah Arendt abre o livro com este título, onde se fala de ausência do pensamento, mergulhado nas convenções quotidianas, com um pequeno texto de Martin Heidegger onde é dito que o pensamento não produz sabedoria prática utilizável.

Existem situações em que o uso de diferentes sinónimos parece ser arbitrário. Será muito diferente dizer que se ficou 'perplexo', 'estupefacto' ou 'atónito'? Se diferenças há, eu não as vejo, a não ser por mera sensibilidade fonética. Partindo deste exemplo, eu entendo o objectivo de Beckett em escrever numa língua que não era a sua para se obrigar a uma maior contenção e disciplina na linguagem. Mas nem toda a sinonímia deve ser entendida deste modo arbitrário, nem o pensamento humano tornar-se beckettiano. Por exemplo, branco, alvo, lívido, ebúrneo, níveo, lácteo, têm em comum a referência de um elemento cromático. Porém, em virtude de uma diversidade, tanto etimológica,  como sinestésica, o seu uso deixa de ser arbitrário, passando a obedecer a critérios mais apertados.

Pensemos no modo como se pode abordar a pele de uma mulher. Dizer que uma mulher tem uma pele branca pressupõe um mero juízo funcional e objectivo. Como elemento de identificação física, diz-se que uma mulher tem a pele branca do mesmo modo que também se diz que é loira, trabalha numa loja, mora em Elvas e tem um Opel Corsa branco com tecto de abrir. Porém, será a mesma coisa descrever a pele de uma mulher como alva, tendo 'alva' que ver com alvor ou alvorada, enquanto primeira claridade do dia? Ou a pele de uma mulher como láctea, tendo 'lácteo' que ver com leite? Ou nívea, enquanto associada à neve? Ou ebúrnea, estando associado ao marfim? Também 'lividez', enquanto sinónimo de 'brancura', terá de ser usado num contexto muito específico, associado a doença, desmaio, má disposição. Dizer que alguém tem uma pele lívida ou que 'ficou lívido' não é o mesmo que dizer alguém tem uma pele branca. Daí se poder dizer que o Opel Corsa é branco mas nunca que o Opel Corsa é lívido.

Quando descreve a chegada de Maria Eduarda ao Hotel Central, Eça fala de 'uma senhora alta, loira, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea'. Estamos, com esta frase, em plena essência da literatura, enquanto construção idealista, em oposição ao exercício meramente funcional da língua com base num materialismo grosseiro no modo como se constrói a percepção da realidade. Se traduzirmos o modo como Eça descreve a sua carne, num registo meramente funcional, objectivo e pragmático, parece querer simplesmente dizer que Maria Eduarda é boa como o milho. Objectivamente: Eça invoca uma carne branca que submerge [ou emerge, fico baralhado] debaixo do véu escuro, uma carne que tanto provoca o desejo de acariciar como de agarrar e apertar. Uma carne que tanto provoca a mão que, ao nível da pele, acaricia ou afaga [carícia e carinho têm a mesma raiz] como a garra feroz e predadora que domina a carne apetitosa da fêmea. Porém, ao traduzir verbalmente o esplendor físico de Maria Eduarda por 'carnação ebúrnea', ocorre um processo de depuração literária que, embora mantenha a linguagem no plano da descrição física ou material, condensa-o esse num outro mais formal e ideal.

Daí fazer sentido Baudelaire dizer, para realçar o contraste com a depuração estética do artista, que 'a foda é o lirismo do povo' [Plus l’homme cultive les arts, moins il bande. Il se fait un divorce de plus en plus sensible entre l’esprit et la brute. La brute seule bande bien, et la fouterie est le lyrisme du peuple, Journaux Intimes, 1887]. Mantendo-nos neste registo, podemos assim dizer que reduzir a linguagem a um plano funcional é reduzi-la a  uma crueza quase animal, associá-la aos mecanismos mais básicos e funcionalmente indispensáveis da mente humana. Para quê dizer 'alvo' ou 'níveo' ou 'lívido' se basta dizer 'branco'? Agora, o problema não é o povo falar assim. O povo sempre falou assim e até tem piada ao falar assim. Grave, é a academia, a escola, a classe científica, os intelectuais, acompanharem os novos tempos, entrando na lógica do popular, rejeitando o prazer e a subtileza da erudição. Isso pode ser visto, tanto ao nível do cada vez maior desprezo da escola face ao esforço necessário para poder ler bons textos e escrever um português decente, como, num plano social, de uma cada vez maior velocidade da mensagem e redução da escrita a uma discursividade instintiva, assim como ainda, no caso de Portugal, país onde tanto se revoga, do miserável Acordo Ortográfico. Parece que, de repente, passou tudo a querer falar e escrever como o povo que fode, reduzindo a linguagem à sua mera funcionalidade. Por isso, no que à linguagem diz respeito [entre outras coisas], parece que estamos mesmo literalmente fodidos. E mentalmente lívidos, claro.