15 outubro, 2016

STURM UND DRANG


Schiller, num estilo bem stürmerich, cria Karl Moor para o transformar num herói revoltado com uma sociedade hipócrita, apesar de destruir tudo à sua volta, ou melhor, precisamente por destruir tudo à sua volta. O seu impetuoso temperamento, visto como expressão da sua liberdade e autenticidade, é, para o escritor alemão, um sinal de nobreza. A nobreza de um espírito indomável que se recusa a pactuar com um mundo que lhe é imposto. Ao elevar a desenfreada liberdade do indivíduo acima de uma sociedade sem alma, compara a liberdade do seu herói à liberdade de Faetonte que, no carro do Sol, guia os cavalos para a sua perdição. Morre, sim, mas livremente, não como um amanuense, um simples militar em serviço, uma flácida marioneta manipulada por invisíveis fios morais, sociais, políticos, despenhada nos sombrios abismos da vulgaridade. Morre, sim, mas a guiar os seus cavalos, não a ser guiado por outros.

Sempre gostei do romantismo do século XIX, que por sinal começa no século XVIII, sendo Schiller uma das suas mais insígnes penas. Mas, enquanto ideologia, nada me atrai no Sturm und Drang a não ser, e aqui, sim, assumo a minha morbidez, um fascínio pelos aspectos mais sórdidos da alma humana. A 'apoteose da vontade romântica' tem tanto de ridículo, infantil e ingénuo como de perigoso combustível, justificando, por isso, terapêuticas refrigerações. Que ideia é essa de ver Faetonte a conduzir livremente o seu carro? Ou Karl Moor a destruir livremente o mundo à sua volta? Livres? Mais não são do que altifalantes dos seus mais obscuros humores e paixões. Não tivesse Karl Moor saído da imaginação de quem o criou e perguntaria que fios invisíveis explicam as suas desenfreadas acções. Fios invisíveis que o tempo, vários acasos e infelizes circunstâncias poderão transformar em rijas cordas que roubarão a liberdade ou a vida a quem tiver o azar de ficar neles enrolados só por ter estado no lugar errado à hora errada da história.

Um forte e indigesto Sturm und Drang, ok, durante o dia, vá, no máximo até ao jantar. Antes de apagarmos a luz, de sermos sorrateiramente dominados por aquele escuro e subterrâneo sono que produz os seus monstros, será sempre preferível um chazinho quente com o riso de um Voltaire ou de um Swift, a bonomia fleumática de um David Hume, as dúvidas e incertezas meio adolescentes de um Montaigne, a pícara alegria de um Cervantes. Teremos assim uma noite descansada com sonhos cor de rosa sobre um fofinho colchão de aurea mediocritas.