13 outubro, 2016

RAVEL E EINSTEIN


Claro que um forte intelecto é um fenómeno universal, e Vela tinha um cérebro primeiro escalão. A faceta científica merecia o maior respeito. Ravelstein, contudo, sustinha que eram escassos os exemplos de grandes personalidades entre os cientistas. Grandes filósofos, pintores, homens de Estado, advogados, sim. Mas homens ou mulheres das ciências dotados de uma grande alma - isso era extremamente raro
- É a ciência deles que é grande, não as pessoas.
  Saul Bellow, Ravelstein

Allan Bloom, o Ravelstein do famoso roman à clé com o mesmo nome, foi um homem grande em todos os aspectos: no físico, intelecto, gestos, desejos, atitudes, influência na sua corte de ex-alunos colocados na mais elevada esfera da política norte-americana. Tudo nele era excessivo, incluindo a própria morte, vítima de SIDA, em vez de uns vulgaríssimos cancro ou enfarte do miocárdio. Tão excessivo que faz o autor do romance acabar com a chave de ouro: 'Não é fácil entregar à morte uma criatura como Ravelstein'.

Será o seu juízo a respeito dos cientistas, igualmente excessivo? Ou não passará apenas de uma blague, uma engraçada provocação só para espicaçar as consciências, num tempo em que a figura do cientista surge cada vez mais como a grande referência intelectual da humanidade? Não por acaso, até na cultura popular o célebre físico Albert Einstein surge como símbolo supremo de inteligência superior e de genialidade. 'Ser um Einstein' significa 'Ser um crânio', e 'Ser um crânio' é, por antonomásia, ser cientista.

Vamos ver. A ciência é feita, diariamente, por milhares e milhares de cientistas que formam o que podemos chamar 'comunidade científica'. Cientistas de todas as idades, de muitas nacionalidades e dos quais nunca ouvimos falar. Não sejamos injustos face a tal anonimato: todos eles foram brilhantes alunos na escola, os melhores de todos, fazendo depois um percurso universitário de grande qualidade, desde a licenciatura até ao pós-doc. Desconhecidos, sim, claro, mas sem deixarem de ser reconhecidos como 'crânios' ou 'cérebros''. Apesar disso, somos forçados a reconhecer, como diz Ravelstein, não haver entre eles lugar para grandes personalidades, seres humanos geniais, dotados de uma 'grande alma'. Está bem. Mas o que dizer dos grandes cientistas? Daqueles que, com as suas descobertas e invenções, estão na origem de revoluções científicas, na mudança de paradigmas que nos levaram a perceber o mundo com outros conceitos e teorias? Ser cientista anónimo numa universidade francesa ou num instituto alemão é uma coisa, outra bem diferente é ser um Galileu, um Newton, um Darwin, um Maxwell, um Mendel, uma Madame Curie, um Einstein, um Max Planck, um António Damásio. Ora, não estará Ravelstein a ser injusto face a estes monstros sagrados da actividade científica e matemática?

Pensemos no Teorema de Pitágoras. Diz-se 'de Pitágoras' por ter sido formulado por um filósofo chamado Pitágoras em vez de outros que se chamaram Platão ou Aristóteles. Fosse um destes e chamar-se-ia Teorema de Platão ou Teorema de Aristóteles, tal como existem os Sólidos Platónicos ou a Lógica Aristotélica. Suponhamos agora que Pitágoras não teria sequer chegado a nascer. Implicaria isso desconhecermos, hoje, dia 13 de Outubro de 2017, 25 séculos depois de Pitágoras não ter existido, a ideia de o quadrado da hipotenusa ser igual à soma do quadrado dos catetos? Seria de todo improvável, como também o seria desconhecermos que a Terra gira em torno do Sol, as leis da hereditariedade, a teoria do electromagnetismo, mesmo dando-se o caso de os pais de Galileu, Mendel ou Maxwell não se terem conhecido e procriado. O teorema é de Pitágoras, sim, não por ter sido o seu criador mas, como Pedro Álvares Cabral, ter sido ele a lá chegar primeiro, tendo todo o mérito por isso, resultado da sua inteligência, esforço, ousadia e conhecimento que fazem com que só uma elite consiga tais descobertas.

E se os pais de Mozart, Tolstoi, Rembrandt, Frank Lloyd Wright ou Lenine, não se tivessem conhecido? Algum outro ser humano teria composto a Flauta Mágica, escrito Guerra e Paz, projectado a Fallingwater House ou influenciado o curso da história da mesma maneira? Como diria Isaiah Berlin (embora a respeito da  natureza dos valores morais e políticos), não existe a sinfonia antes de ser composta, esperando que alguém a descubra para ser depois tocada. Admitir isso, só como lúdico e divertido exercício leibniziano onde se conceba todas as combinações possíveis do universo. O Teorema de Pitágoras ou as Leis de Newton, sim, existem independentemente de quem os formulou, não precisando deles para nada, do mesmo modo que já no Paleolítico era verdadeiro, logo, uma evidência racional, o facto de que se A é maior que B, e B maior que C, então A é maior que C, ainda que nenhum ser humano tivesse disso consciência. Pitágoras e Newton, como Álvares Cabral, apenas lá chegaram, o que faz com que sejam os cientistas a pertencer à ciência e não a ciência a pertencer aos cientistas.

Já em áreas como a literatura, a pintura, a música, a arquitectura, a política, ou até mesmo a filosofia, não existe uma verdade ou evidência racional que imponha um modelo mecânico de pensamento que depende necessariamente do modo como o mundo está organizado para se poder legitimar. Como a ciência, sim, são áreas onde a inteligência, o esforço e a inteligência se revelam fundamentais. Mas onde também a liberdade criativa, a abertura, a espontaneidade, a imaginação, originalidade, enfim, a genialidade de um espírito que depende apenas de si próprio, acabam por explicar a obra que nasce e que só desse espírito poderia ter nascido. Creio ser isso que pretende Ravelstein ao dizer ser a ciência grande e não os cientistas. No caso dos outros, é a sua grandeza que vai fazendo a grandeza das áreas aos quais ficarão eternamente ligadas.