04 outubro, 2016

PASSA POR MIM NO OUTONO

Arcimboldo | Outono

Costuma-se falar da divina Graça que é viver num país onde, ao contrário do que se passa em grande parte da Europa, há Sol todo o ano. Eu nada tenho contra o Sol, até porque sem ele não existiria vida tal como a conhecemos. E percebo que no Verão faça o seu trabalho, tendo mesmo de aceitar com resignação os seus agressivos raios. Mas é sórdido um calor destes em Outubro. O Sol mais parece o de Guernica com a sua doentia e opressiva electricidade.

Uma das consequências mais nefastas deste Verão peganhento e que teima em ser imortal, tem que ver com a minha relação com os frutos secos do Outono. Eu gosto muito de frutos secos: do sabor, das suas impudicas calorias, do seu açúcar vaidoso, da sua textura consistente ou sólida suculência. Mas gosto também da sua identidade poética. Cada fruto, seco ou não seco, é um poema escrito com cores, formas, texturas, néctares, sabores e cheiros. E comer fruta funde-nos com a substância própria de cada estação. Seja a fruta fresca da época, sejam os frutos secos que sobreviveram à sua época. Comer morangos é encher a boca de Primavera. Comer um fruto seco é compreender o mistério do Outono e a sua harmonia, uma síntese entre o frio que virá e um calor desvanecido que se vai lentamente despedindo.

Um fruto seco é um fruto de época que sobreviveu à morte graças ao poder curativo do Sol. Por exemplo, uma passa de figo. O figo amadurece para ser comido em pleno Verão. Mas, depois de seco, pede para ser comido quando já terão surgido as folhas secas pelo chão, os primeiros frios que nos impõem confortáveis agasalhos, as primeiras neblinas, quando a lenha começa a ser cortada para as lareiras que dão ao lar um outro sentido cósmico. Comer passas de figo é comer um fruto que está morto mas ressuscitado pelo imenso poder do Sol do Verão, para ser depois comido quando aquele já se despediu. Tal como as nozes, que secaram também através do Sol e celebram as suas núpcias com as passas cuja carne de amante sequiosa se abre para as receber. A substância do Sol está toda ela outonalmente dissimulada nas sólidas consistência das passas e das nozes, orgulhosas naturezas mortas, fruta que fenece mas não o suficiente para impedir uma beleza madura, encantadora e prenhe de sabor

Com este estúpido calor de Outubro tudo fica adiado. As castanhas andam por aí mas fatalmente olhadas com fastio. À dionisíaca água-pé falta as hormonas do frio para cozer, as passas, as nozes e as avelãs envergonham-se das suas calorias, sentindo-as supérfluas perante tanto calor. Comê-las assim é quase tão despropositado como ir num dia quente de Verão para a praia com uma camisola de lã. Mas mais ainda do que tudo isso, estar em Outubro com este calor esparvoado é estar exilado, alienado. Devo sentir o mesmo que o Trotsky das estepes russas, escorrendo suor num México de cactos, areia, répteis e coiotes. Deus queira, ao contrário dele, que regresse rapidamente a casa, libertando-me de vez desta ígnea picareta solar sobre a minha pobre cabeça.