24 outubro, 2016

OUTONO

[Bussaco]

Quando me perguntam pela minha estação preferida, por comodidade, costumo responder que é o Outono. De facto, gosto muito do Outono e será no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia de chuva. Mas também não é no Outono que gosto de fazer algumas das coisas que mais gosto de fazer na vida, como acordar num dia sem ser de chuva. Por isso não posso verdadeiramente dizer que o Outono seja a minha estação preferida apesar de ser a minha estação preferida. Do que gosto mesmo é das passagens de umas estações para as outras. Mais do que das estações gosto dos seus intervalos. Os intervalos não são estações. São a transmigração das estações num corpo circular que vai nascendo e morrendo com a mesma tranquilidade com que chove e faz sol, frio e calor.

Gosto muito da estabilidade e da previsibilidade. Se eu pudesse, seria feito de leis como as da natureza e de estar sujeito ao ciclo das estações. Saberia que vou arrefecer porque vem o Outono. Depois, que iria nevar porque é Inverno. Meses depois, aquecer suavemente, florir e verdejar para finalmente terminar o ciclo com um Sol escaldante que pediria um bom banho de mar ou a frescura de uma bela sombra.

Dizer que se gosta especificamente de uma estação é como gostar da linha horizontal de um electrocardiograma de alguém que acaba de morrer. Gostar dos intervalos das estações é gostar da renovação das estações que se repetem infinitamente para nós também nos podermos repetir infinitamente. Daí não ficar centrado no Outono, obcecado pelo Outono, ter só sentidos e alma para o Outono. Porém, por mais voltas que o calendário dê, por mais prazeres que as estações me tragam, chego sempre ao Outono com a sensação de regresso a casa, na qual em todos os seus espelhos me reconheço.