22 outubro, 2016

O PESO E A LEVEZA


Aula das 8.30, os alunos vão entrando na sala e entretendo o meu nariz com um pregnante desfile de perfumes. Decido abrir as hostilidades, não com o sumário, mas dizendo que o pessoal este ano anda bastante peneirento. Digo isto e sinto de imediato uma enorme estranheza por me ouvir dizer a palavra 'peneirentos'. Nós falamos mas raramente nos ouvimos a falar. Dizemos coisas, temos consciência delas, mas a nossa voz emite palavras para o exterior sem sentirmos o seu peso. A palavra 'peneirento' saiu espontânea e automaticamente como qualquer outra palavra das muitas que emito todos os dias mas, desta vez, sentindo a sua presença como se de um corpo sonoro se tratasse, com um peso e volume sobrepostos à sua natureza formal. Assim como estar com alguém com quem temos uma relação distante e formal, e calha dizermos 'merda' porque nos esquecermos de um documento importante. 'Merda', neste caso, não é uma simples massa de ar feita de vogais e consoantes da qual nem nos apercebemos, mas uma dura e pesada pedra lançada pela nossa boca aos ouvidos da outra pessoa. A estranheza aconteceu, neste caso, por se tratar de uma espontânea ressurreição, após um desaparecimento de décadas num qualquer armário de um obscuro quarto de arrumações da minha memória. 

Eis, pois, o que aconteceu na minha consciência. Não menos interessante foi o que aconteceu na consciência dos alunos. Eles nunca tinham ouvido a palavra, um desconhecimento perfeitamente normal, uma vez que está praticamente extinta. Mas a minha frase, dita assim, sem perceberem o contexto, fez com que a palavra, embora feita da mesma massa de ar de vogais e consoantes de 'este', 'ano', 'pessoal', 'anda' 'bastante', de leve e rápida absorção, se tornasse uma pedra cujo peso e volume não passa despercebido. Dei-lhes uma pista: andam peneirentos por causa dos perfumes. Nesse momento, alguma luz se terá acendido. Se uma pessoa é peneirenta por usar perfume, isso deve querer significar 'vaidosa'. Muito bem. É mais ou menos assim que aprendemos palavras como 'corajoso', 'fleumático', veemência', 'subtil' ou 'egocêntrico'. Não é como apontar para uma pá e uma vassoura e dizer: 'Isto é uma pá e aquilo é uma vassoura'. Ou como aprendemos uma linguagem estrangeira, por exemplo, alemão: 'apfel é maçã', 'fenster é janela', 'baum é árvore'. Ambas aprendizagens ostensivas, em que temos a plena consciência de que estamos a aprendê-las. No caso de 'peneirento', é o contexto que permite a sua aprendizagem de um modo, não ostensivo, mas associativo.

Acontece, porém, que alguns alunos, sentindo a estranheza da palavra 'peneirento', em comparação com a clareza e evidência da palavra 'vaidoso', logo se vestiram de arqueólogos para tentar decifrar o seu sentido. Arqueólogos em busca de uma palavra, da sua conquista, da sua posse, da sua materialidade como se de um valioso objecto se tratasse. Não chegaram lá. Eu próprio, confesso, quando a usava, nunca perdi dois segundos a pensar por que razão se chama 'peneirento' a uma pessoa. Desta vez, a estranheza dos alunos obrigou-me a esse exercício. Fez-se luz, e agora, bem forte, dentro de mim, que esta coisa de ser velho dá-nos algum avanço, e perguntei o que era uma peneira. Ninguém sabia o que era uma peneira e eu expliquei. Nesse momento, perceberam de imediato o que eu havia percebido, sabendo agora porque em tempos se chamava peneirento a uma pessoa, tendo o mesmo significado de vaidoso, que todos eles expiram como massa de ar de vogais e consoantes.

Acontece que vai 'vaidade'ou 'vaidoso', tal como 'peneirento', têm um significado muito para além dessa vaga massa de ar que retine no cérebro, permitindo os naturais mecanismos descritivos da realidade ou da comunicação entre pessoas. Ou seja, uma pedra com um peso e um volume que lhe fazem ganhar uma consistência da qual não nos apercebemos. E o mesmo se passa praticamente com toda a nossa linguagem, fazendo de nós cabeças falantes com palavras atiradas para fora mas que no interior têm a consistência de bolas de sabão lançadas para o ar para rapidamente se dissiparem em cabeças que ouvem.