12 outubro, 2016

O ESPECTRO

Ré Soupault

Uma casa decadente onde tudo parece estar num processo de corrupção. O papel de parede que se rasga e esboroa, o móvel cheio de mazelas e habitado por objectos que para ali estão, abandonados, sem saberem bem a fazer o quê. Que mulher será aquela? Trata-se de uma mulher real, reflectida no espelho, embora tão estática e indiferente como os objectos que ainda acreditam pertencer-lhe, fazendo lembrar os fiéis animais perante o túmulo do dono só porque é ali que se encontra o seu corpo ou o que começa a restar dele. Mas um espelho que também poderia ser a moldura da pintura de uma mulher, representando, numa espécie de altar profano, a mulher que, outrora, viveu naquele estranho lugar esquecido no tempo e de todos. Ao não vermos o original, quer dizer, a verdadeira mulher sentada naquela sala com uma expressão ausente, exacerba-se a sua especular imagem como entidade irreal, mágica, fantasmagórica, vinda sabe-se lá de que etéreo mundo. Fosse jovem e bonita e poderia ser um anjo renascentista. Mas não, nada disso e deixemo-nos de especulações delirantes. O reflexo daquela mulher naquele espelho é apenas e tão só a antecipação real do que ela ainda não é mas que já se prepara para ser, rumo ao não ser. E quando desaparecer de vez daquele espelho, ir-se-á então mesmo saber que o móvel não é um altar, nem aquela mulher, simples, indefinida, inefável, digna de lá ser invocada através de uma pintura que a imortalizasse, como a mãe de Whistler. Ainda que lute por não o ser, a fotografia será sempre uma arte do fugaz e do efémero, por muito estáticas e perenes que se apresentem as suas personagens. A arte pode produzir artificialmente, seja no estúdio do pintor ou pela caneta do escritor, entidades irreais, mágicas, fantasmagóricas. A vida encarrega-se de o fazer naturalmente.