06 outubro, 2016

HÁ SÓ UMA TERRA


Sendo Torres Novas uma terra pequena, conhece-se muita gente de vista. Conheço, há décadas, pessoas com quem nunca falei, embora saiba onde trabalham, onde moram, se são casadas ou solteiras, se têm filhos ou cão, quais os cafés ou supermercados que frequentam. Já tem acontecido encontrar algumas delas fora de Torres Novas, o que cria uma situação estranha. Sei, pela experiência, que se for em terras como Tomar, Santarém ou Leiria, o que acontece é olharmo-nos com mais atenção só para confirmar que somos a tal pessoa lá da terra, mas sem motivo para cumprimentar ou sequer uma expressão de simpatia. Já se acontecer em Lisboa, pode surgir um discreto sorriso de reconhecimento ou uma subtil inclinação da cabeça em jeito de cumprimento que não se quer bem assumir. Pessoas que se vêem no dia-a-dia em Torres Novas acabam por se tornar "desconhecidos íntimos", e o facto de se encontrarem ali, na grande cidade, possibilita esse reconhecimento que, nalguns casos, pode mesmo levar a um pudico "Bom dia" ou "Boa tarde", uma cortesia que sai por instinto. 

E se o inesperado encontro surgir muito mais longe ou num sítio onde não é suposto encontrar pessoas aqui da terra? Bem, neste caso, será quase fatal meter conversa, saindo um simpático e mais desempoeirado "Então, por aqui...?!", o que dará lugar a relatório detalhado sobre o que se faz por ali. Mas vejamos. Se, numa manhã, ao ir para o trabalho, eu parar para perguntar a essa mesma pessoa que vejo todos os dias mas com quem nunca falei, onde conta passar férias ou ir no fim-de-semana seguinte, irá pensar que tenho um sério problema psiquiátrico para resolver. Eu poderia alegar que, sendo nós da mesma terra, vendo-nos com frequência na rua ou no supermercado, a curiosidade sobre nós enquanto "desconhecidos íntimos" pode ser considerada normal. Mesmo assim, desconfio que continuará a pensar que tenho um sério problema psiquiátrico. Porém, se for lá longe, as exactamente mesmas pessoas já parecerão velhos amigos, todos felizes e contentes pelo encontro inesperado, falando das suas vidas de modo bem arejado. Qual a razão? Direi mesmo, a única razão: sermos da mesma terra. 

Um dia, era eu rapaz novo, estava sozinho à boleia na fronteira de Irún. Após horas de braço esticado, aproxima-se um rapaz com ar de ser português ou espanhol. Era português e também se preparava para pedir boleia. A partir daí andámos juntos. As vicissitudes de andar à boleia fizeram com que, depois de um dia perdido e uma noite a dormir ao relento, debaixo de uma árvore, no dia seguinte, em vez de descermos para Portugal, fossemos levados para Bilbau por um camionista suíço que depois nos pagou a viagem nocturna de comboio para Madrid, onde chegámos de manhã cedo, partilhando uma lata de sardinha como pequeno-almoço. Como só havia comboio para Portugal quase à meia-noite, passámos o dia a vaguear, quase sem dinheiro, por toda a cidade. Não podíamos ser mais diferentes. Eu, na altura, era de esquerda, lia Marx e assim, tinha acabado de passar dois meses na Alemanha no meio de alemães alternativos que liam Reich, Marcuse e Fromm, e as raparigas tinham pêlos nas pernas e nos sovacos, enquanto ele era um beto reaccionário, com roupinha de marca, mesmo à boleia. Eu era calmo e tímido, ele, meio espalhafatoso. Onde para mim era branco, para ele era preto, onde para ele era branco, para mim era preto. Em suma, tinha tudo para correr mal. Mas o facto de sermos portugueses, de falarmos a mesma língua e vivermos na mesma casa ligou-nos, criando um sentimento de comunhão e segurança que em Portugal se tornaria improvável.

Um ribatejano e um minhoto, na Suécia, percebem que são portugueses. Um português e um sueco, em Miami, Hong Kong ou Manila, percebem que são europeus. Os círculos concêntricos parecem acabar aqui. Mas não. Vejamos, existem versões modernas das velhinhas Viagens de Gulliver. São livros ou filmes de Ficção Científica que revelam, a anos-luz da Terra, formas de vida completamente distintas da nossa. Da nossa? Como assim? De Portugal? Da Suécia? Dos Estados Unidos? China? Filipinas? Não, da Terra. Não por acaso, a tripulação da série "Espaço 1999" tem brancos, pretos, orientais. Faz sentido. A anos-luz da Terra, que importância tem isso? A mesma que teve, para mim, encontrar um beto com roupa de marca quando estou sozinho à boleia, longe de casa, ainda a sonhar com as alemãs de pêlos nas pernas e nos sovacos. Ou a importância que tinha ele ser de direita, de contar anedotas sem piada ou ver filmes parvos. Quando se está longe de casa, a dormir debaixo de uma árvore, ouvir, na nossa língua, anedotas sem piada ou ouvir falar de filmes parvos é tão gratificante, tão confortável, tão heimatlich como ser alternativo aos 20 anos com um lenço palestiniano ao pescoço a acariciar uma alternativa perna feminina com alternativos pêlos.

A mesma razão que leva um ser humano a gostar de encontrar um outro desconhecido num planeta distante da Terra, é, noutra escala, a que leva uma pessoa de Torres Novas a gostar de encontrar outra pessoa de Torres Novas numa terra longínqua. Ou a mesma que leva alguém, numa ilha deserta perto da qual naufragou e onde vive sozinho há anos, a gostar de ver chegar outra pessoa. Neste caso, pouco importa se é branco ou preto, culto ou inculto, se fala a nossa língua, Inglês ou apenas uma língua bárbara. É humano e basta, o suficiente para nos tornarmos "desconhecidos íntimos". Não quero dizer com isto que devemos sentir elevados arrebatamentos fraternais perante a humanidade, darmos as mãos, andarmos aos beijos e abraços no meio da rua, a tratar toda a gente por "tu" porque somos irmãos. Utopias parvas só servem para vender canções e impingir ideologias a totós. Mas também não custaria muito estarmos mais atentos ao que nos une do que ao que nos separa. Neste caso, não numa terra chamada Torres Novas, mas na mesma Terra da qual todos fazemos parte e que nos faz ser o que somos.