02 outubro, 2016

FEIRA DOS FRUTOS SECOS E PASSADOS

Caravaggio | Cesto de Fruta

Ao seguirmos as acções das personagens num romance, ficamos com a ideia de que tudo acontece naturalmente em vez de cismado e ensaiado nas férteis circunvolunções do escritor. Neste caso, é mesmo o escritor sonhar e querer, a obra nascer, o leitor ler e, no fim, bater tudo certo. O que se passa no romance não tem de ser verdadeiro mas verosímil, ainda que se trate de um rapaz que acorde de manhã transformado em insecto ou um nariz que se separa do seu dono para vaguear sozinho pela cidade. Não é verdade que Carlos e Maria Eduarda sejam dois irmãos que, por um conjunto de improváveis acasos, foram parar à mesma cama. Mas nós não pedimos ao escritor que seja jornalista ou historiador, apenas que saiba inventar bem para nosso deleite e tácita credulidade. Já ingrato é alguém que, vendo mesmo diante dos olhos inverosímeis factos que não sonhou nem quis, espere que os outros creiam neles como nuas verdades, sem vestígios sequer do mais diáfano trapinho da fantasia, por muito roto e esfarrapado que se apresente. 

Resolvi ir hoje à feira dos frutos secos que se realiza todos os anos em Torres Novas. E de manhã, para evitar a bárbara invasão do ululante povo que preza enxamear-se em redor das bancas como se fossem colmeias. Não estava frio nem calor, o tempo ideal para caminhar, e lá fui por aí abaixo, fazendo o que não fazia há muito: atravessar a pé o pedaço de rua da minha infância, da minha juventude e de parte da minha vida adulta. Não se via vivalma e o único som que interrompia o silêncio era o dos meus passos. Quase em frente à casa que foi minha, do lado direito, a mercearia, para sempre fechada e a aguardar demolição, a desfazer-se. A mercearia onde durante anos fui fazer recados mas também para onde me dirigia, com maternais moedas na mão, para comprar chocolates, bolachas, rebuçados, sugus, beijinhos, línguas de gato e outros venenos, ou onde, já pai de filhos, ia todos os dias de manhã buscar o pão, ou para comprar fruta e legumes. Poucos metros mais abaixo, após a curva, surge o café onde entrei mais vezes na vida do que em todos os outros juntos. Em criança só para comprar os rajás que chegavam apenas na Primavera, mas anos depois, para jogar flippers só com uma moeda e, mais tarde ainda, com chávena de café na mesa, ler o jornal e dar dois ou três dedos de conversa com os habituais vizinhos de diária tertúlia. Tal como a mercearia, vazio e fechado.

Pouco depois, já na feira, estava eu junto de uma banca a estudar umas nozes e eis que surge o senhor da mercearia que me viu nascer e crescer. Há muito que não o via. A última vez havia sido no funeral da minha mãe. Estava a poucos metros de mim, tendo sido o primeiro a apertar-me a mão após a consumação da despedida. Ter sido o senhor da mercearia, o homem dos chocolates, das bolachas, dos rebuçados, dos sugus, dos beijinhos e línguas de gato, fez-me ver aquele aperto de mão também como despedida de um mundo que passou de vez. Falamos do presente, de velhices, de maleitas, da mulher, coitadinha, velhinha e marrequinha mas que era uma jovem quando o casal, humilde, abriu a loja, do ócio forçado pelo peso dos anos, indo depois cada um à sua vida. Faço as minhas compras, paro duas vezes para conversar com pessoas conhecidas e volto para casa. Ainda antes de começar a subir a ladeira, longe do meu naco de rua, vejo, vindo da antiga praça do peixe, o senhor do café, que também há muito não via. Curvado, lento, a arrastar os pés, cabelo comprido como outrora mas branco como neve, um homem que foi caçador e que num café a abarrotar de gente dava sozinho conta do recado. Esperei que chegasse até mim para o cumprimentar, fazendo-o ele com voz trémula e já muito sumida. Dizemos as habituais palavras de circunstância e vai cada um à sua vida.

Menos de uma hora depois de passar pelos dois estabelecimentos que me levaram a divagar por outros tempos, eis que surgem os respectivos donos como espectros que me fizeram sentir o que deve ter sentido Ulisses quando desce ao Hades e encontra as fugazes sombras de quem, outrora, gozou de plena vitalidade. Neste momento, é natural que a credulidade do leitor já se tenha esgotado, vertendo apenas uma boa dose de indulgência sobre um frustrado escritor que força a realidade a inventar factos para compensar a sua inépcia para criar histórias verosímeis. Seja. Mas, perdido por cem, perdido por mil, a história não acaba aqui. Irei a montante do que até agora fielmente descrevi, resguardado apenas pela minha honesta consciência dos factos, dispensando assim os habituais juramentos pelos filhos em nome da verdade, de quem teme os desconfiados juízos alheios.

Antes de sair para a feira, tinha avançado um capítulo nas Viagens de Gulliver. Quis o destino que já tivesse passado há muito a famosa Lilliput, mas também Brobdingnag, Laputa e outros lugares. Como quis o mesmo que ainda não tenha chegado ao país dos Houyhnhnms que, diz-me o índice, já vem perto. Quis, sim, que nesta manhã acompanhasse Gulliver na sua visita a Glubbdubdrib. Para nós, ocidentais, a mais surpreendente característica desta terra é ser povoada por espectros que passam muito naturalmente pelos vivos, à luz do dia, como se nunca tivessem chegado a abandonar o mundo mas também já não fazendo parte dele. Sabendo Gulliver que podia chamar os espectros que bem entendesse para com eles conversar, aproveitou assim para encontrar Homero, Aristóteles, Alexandre, o Grande, César, Pompeu, Bruto, Descartes ou Gassendi. Fantasmas que outrora foram seres vivos pujantes em mundos que o tempo tornou igualmente fantasmagóricos.

Quando regressava a casa, ao passar pelo café, pela casa e pela mercearia, a rua permanecia vazia e silenciosa.