05 outubro, 2016

5 DE OUTUBRO

Portugueses no local onde foram barbaramente assassinados o rei D. Carlos e o Príncipe Real

Se em vez de assaltar o poder, os estomagados maçons de 1910 tivessem ficado apenas sossegadinhos a afinar as goelas para vociferar a romântica verborreia jacobina, Portugal não seria hoje muito diferente do que, mais piolheira menos piolheira, mais choldra menos choldra, continua a ser, e futura-se-me que vai continuar a ser. Pronto, as coisas são o que são e quem dá o que pode a mais não é obrigado. Mas continuando monárquico talvez Portugal viesse a ser, vá, um bocadinho melhor: ter-se-iam evitado os 16 anos de caos da I República, os 48 anos de chumbo da II República e muitos dos desvarios da III República (ena, tanta república!), os quais devem muito por aos 48 anos de chumbo da II República que, por sua vez, ficam a dever bastante aos 16 anos de caos da I República, protagonizado por irmãos republicanos que acusavam a monarquia de incompetência. E como diria Steiner, também estes tiveram a sua desairada segunda-feira de manhã.

Em 1910, Portugal não precisava de uma farfalhuda república, precisava de um bom governo, desiderato, tal como hoje, a roçar as franjas da utopia. A monarquia, em si mesma, nunca foi um problema. O problema da monarquia não era a monarquia mas os governos da monarquia. Diz-se que o fim da monarquia era inevitável pois o regime estava moribundo com a suas crises, escândalos e bancarrota do Estado. Ora, dizer isto é tão descocado como afirmar em 2016 que o fim da república é inevitável pois o regime está moribundo com as suas crises, escândalos e bancarrota do Estado. Em 2016, Portugal não precisa de uma monarquia, tal como em 1910 não precisava da república, precisa de um bom governo. O problema da república não é a república mas os governos da república. E se há hoje quem se desvaire a pensar que a monarquia viria resolver alguma coisa, também os bigodudos republicanos de 1910 não estariam a ver bem o lamaçal político onde foram alegremente chafurdar, a não ser que a conquista do poder, por si só, já fosse considerado pelos Afonsinhos da costa republicana, uma elevada, comovente e patriótica missão lusíada.

Para pensar Portugal é irrelevante fazê-lo condicionado pela ideia de monarquia ou república. Filosoficamente, pode ser engraçado argumentar a favor de uma ou de outra mas, depois, na prática, e ainda que constitucionalmente distintas (enfim, picuinhices formais), é indiferente viver sob o poder de monárquicos ou republicanos. Há monarquias onde se vive melhor do que em certas repúblicas e repúblicas onde se vive melhor do que em certas monarquias. Eu não me sinto particularmente orgulhoso e filosoficamente apaziguado por viver numa república, e não me parece que a esmagadora maioria dos ingleses, suecos, dinamarqueses, noruegueses, holandeses, belgas ou espanhóis se sintam humilhados e ofendidos na sua condição de humildes e resignados súbditos das respectivas famílias reais. A Suécia habitada por portugueses há muito que teria entrado em decadência, Portugal habitado por suecos há muito que seria um país desenvolvido. O plano Marshall resultou na Alemanha porque foi aplicado por alemães, os fundos comunitários não resultaram em Portugal porque foram aplicados por portugueses. Em Portugal não há qualquer relação de causalidade entre monarquia e decadência e a prova são os mais de cem anos de república. O problema de Portugal não é o regime, não é a monarquia ou a república. O problema de Portugal são os portugueses. Dizia o saudoso duque de Palmela que temos de saber viver com os portugueses que temos pois não há outros.