14 setembro, 2016

TERÊNCIO REVISITADO

André Kertész | Série On Reading

No Público de ontem, vem um artigo de Paulo Rangel cujo assunto nada tem que ver com os habituais temas políticos: a morte de Barbosa de Melo. Um artigo que não cai na fácil devoção agiológica de cariz corporativo-partidário, nem visa o político social-democrata Barbosa de Melo, mas antes o professor universitário, o intelectual e, sobretudo, o humanista.

Lembro-me de Barbosa de Melo como deputado do PSD e presidente da A.R. Fora isso, trata-se de uma figura que me passou completamente ao lado, não fazendo sequer ideia de ter sido professor de Ciências da Administração. Achei piada pois acontece que quando acabei o liceu e chegou a hora de escolher um curso, uma das razões que me levaram a não ir para Direito foi precisamente não ter de apanhar pela frente cadeiras como Ciências da Administração. Porém, lembra o cronista, o professor leccionava as suas aulas, viajando entre a pintura de Botticelli e a filosofia de Aristóteles, os Fedaralist Papers e o Quixote, Hannah Arendt e Agustina, Homero e Einstein, o padre António Vieira e Freud, Gil Vicente e Churchill. E Kant. Kant estava sempre lá de uma maneira ou outra. E porquê? Não pelo fútil exercício da erudição vazia mas porque, afirma Rangel, só o humano lhe interessava.
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Não creio que a erudição seja condição suficiente ou até necessária para se ser um bom político, tendo que se andar com Tucídides debaixo do braço para ganhar credibilidade e estatuto político. Freitas do Amaral é um homem com uma vasta cultura erudita e nunca votei nele. O engenheiro Sócrates pode citar os filósofos que bem entender, que isso não faz dele uma pessoa recomendável. A personagem do romance As Benevolentes está ligada à filosofia e é um apaixonado pela cultura clássica mas, como muitos nazis que existiram de facto, isso não o impediu de andar a matar judeus e sentir o inebriamento da guerra. Do mesmo modo que há políticos que, não sendo intelectuais, não deixam de ser competentesMas não posso deixar de confessar que me soube bem ler o artigo de Paulo Rangel, desta vez, não sobre um tema político, económico ou social mas sobre o enaltecimento biográfico de um homem no qual se releva a sua erudição e formação humanista, numa época em que a velha Política se tornou num rude Polifemo que, despoticamente, domina a sua ilha, atacando a humanidade que lá quer viver, com as catapultas da finança e da banca. Enfim, uma lufada de humano ar fresco numa sala contaminada por fumo tecnocrata.

A velha cultura pode não servir para as contas de mercearia, que são obviamente importantes para resolver os problemas da saúde, da segurança social, da educação. Mas, e agora penso como o velho Plutarco, é pelo ethos de um político que a política deveria sempre começar. E a primeira coisa que um político deve saber é que, como dizia Terêncio, nada do que e humano lhe é estranho. Sim, eu sei, não chega para equilibrar o défice, pagar o serviço nacional de saúde, uma boa escola pública e as reformas aos cidadãos. Mas temos que começar por algum lado e uma cultura humanista será sempre um elegante e recomendável ponto de partida. Nem que seja porque políticos e professores, e Barbosa de Melo, foi ambas as coisas, serão sempre, ou deveriam ser, modelos para a sociedade.