02 setembro, 2016

OLHO VIVO

Garry Winogrand | Sem Título, NY, 1969

Quis o Diabo que eu tivesse de nascer e viver numa terra que, no Verão, foi feita para ser habitada por animais de sangue frio. Quando, no Verão, por prementes e inadiáveis razões, preciso de sair em horas impróprias para humanos, ainda hoje me surpreendo ao ver por aí, em vez de répteis, coiotes e abutres pelo ar, seres dotados de racionalidade. Sempre gostei de ver os boletins meteorológicos, aquela coisa de seguir as terras mais quentes, as mais frias, as que sobem, as que descem, como se da Volta a Portugal ou o Tour de France se tratasse. Lembro-me de, há uns anos, ao ver as temperaturas de Évora e Beja, com os seus consecutivos recordes de calor, ficar arrepiado só de pensar nas pessoas que lá vivem. Entretanto, nos últimos anos, para mal dos meus pecados, tem vindo a ser o distrito de Santarém cada vez mais o Joaquim Agostinho do calor, com efeitos imediatos no meu desespero e perdição. Todo eu sou outonal e se calhasse ser uma alegoria renascentista ou barroca, teria sempre de surgir banhado por uma luz ténue e pintado com tons castanhos e amarelados.

Há anos que tenho um ritual. Não é bem um ritual mas antes uma reacção mecânica, um automatismo quase homeostático: vestir calções  no meu primeiro dia de férias e só voltar a despi-los no primeiro dia de trabalho. Acontece ter sido ontem este malfadado dia. Um dia de revolta: por voltar ao trabalho, pelo estúpido calor, mas também pela discriminação dos homens face às mulheres, imediatamente constatada ao entrar na sala de professores, ou melhor, e mais propriamente, de professoras. Enquanto o mulherio pode optar por vestidos ou saias e até alguns tipos de calções, permitindo assim uma maior ventilação abaixo da cintura, exigem  as convenções sociais que um professor não possa ir trabalhar de calções, ficando obrigado a mortificar-se com esse cilício de tecido que são as calças, exorbitando mais ainda as ígneas agruras da canícula. Mas não só. Enquanto uma mulher pode aparecer com uma blusa de alças, descobrindo por completo os braços, ombros, omoplatas, pescoço e até o peito até onde o pudor e o decoro permitem, impedem as convenções sociais que um professor possa aparecer no seu local de trabalho com uma T-shirt de alças, ainda que sem o clássico boné com a pala virada ao contrário e tatuagens nos braços. Nem que fosse da Ralph Lauren ou me apresentasse com um crocodilo sobre o mamilo. Mas a discriminação não acaba aqui. É sobejamente conhecida a tara das mulheres pelo calçado que lhes veste e adorna os pés. Tara que inclui, para além de sapatos tão abertos como a alma de um poeta, sandálias das mais variadas e até exóticas formas, aceites nas mais formais ocasiões. Ora alguém imagina, seja um importante gestor ou administrador, seja um simples professor ou bancário, a aparecer de sandálias no seu local de trabalho? O que implica, para além de já ter que cobrir pernas, braços, ombros (para já não falar nos homens obrigados a usar colarinho apertado com gravata e fato completo), andar com os pés a arder sobre um solo que mais parece a superfície do Inferno.

Acontece que para além do azar de viver no sítio estupidamente mais quente de Portugal, acresce o outro de não viver em França, berço da igualdade, liberdade e fraternidade. Fosse esse o caso e teria a esperança de, um dia, em virtude dos mais elevados e sofisticados argumentos filosóficos, poder ver o governo do meu país proibir os homens de, no Verão, vestirem calças, camisas de manga comprida e penitenciarem-se com a tortura dos sapatos apertados, evitando assim qualquer tipo de discriminação entre homens e mulheres, resultante de meras e arbitrárias convenções sociais. Azar dos azares, vivo num país ainda sujeito às mais fundamentalistas e retrógradas convenções, sendo obrigado a sair sob um sol impenitente para ir trabalhar como se para as masmorras da inquisição me dirigisse. É verdade que as mulheres não estão completamente isentas de discriminação. Enquanto um homem pode estar na praia, na piscina ou até, em certos lugares, na rua ou numa esplanada a beber imperais e a comer tremoços, em tronco nu, as mulheres são ainda obrigadas a esse espartilho social que as obriga, à excepção de algumas mais generosas e cosmopolitas praias, a tapar as mamas. Igualdade da cintura para baixo, sim, mas indigna desigualdade da cintura para cima. Juro que não digo isto motivado por um malicioso interesse próprio, uma vez que até sou adepto de as intimidades estarem reservadas para as mais especiais e impartilháveis ocasiões. Trata-se de um genuíno acto indignação perante esta discriminação do sexo oposto, o que mostra até ausência de ressentimento, se bem que não de inveja, face aos seus benefícios acima referidos. Sorte virão a ter um dias as mulheres francesas, protegidas pelos governos da república, sejam de direita ou de esquerda. Se já existe o desejo político de obrigar, na praia, todas as mulheres a exibir braços, pernas, cabelo ou pescoço, para não ficarem atrás dos homens, virá o dia em que a igualdade será total, sendo obrigadas a exibirem as suas livres e jacobinas mamas, sejam elas firmes e hirtas como as de Marianne, sejam elas mais penalizadas pela força da gravidade, evitando assim sujeitá-las a uma convenção social da qual o tempo libertou os homens. 

Quis o Diabo que eu nascesse em Portugal, país atrasado, o que pode ser explicado pelas nefastas influências de religiões pouco ilustradas. Sorte tiveram os gauleses, por Deus, qual judeu, qual brasileiro, qual opressiva carapuça, se ter tornado francês desde o século XVIII, vigiando solenemente a pátria com o seu racional olho que tudo vê, fazendo dela a terra da liberdade, igualdade e fraternidade.