26 setembro, 2016

O SERMÃO

Julia Margaret Cameron


- O senhor não lê as gazetas? - Perguntou o vigário abruptamente.
- Não leio, nem as vi nunca - respondeu o moço [...]
- Pois- tornou o padre-, as gazetas são uns papéis escritos em letra redonda, criados e sustentados para demonstrarem que todos os homens têm direitos iguais. Muito me admira que seus avós e o senhor tenham praticado a igualdade sem terem lido as gazetas! Provavelmente em casa dos Militões de Vila Cova lia-se o Evangelho de Jesus Nazareno.
-Lia, sim, senhor.
- Só assim pode explicar-se a virtude sem a doutrinação das gazetas. Dizem que elas são o baluarte da liberdade, da igualdade, e da fraternidade; e eu estou em defender que o sermão da montanha, pregado pelo filho de Deus há mil e oitocentos anos, e o sermão da natureza, que sem cessar se está ouvindo, bastam para fazer um homem irmão e amigo do outro homem, por amor de Deus, que é o pai de todos. Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal.

Dizia Alfred Whitehead, provocador, que toda a filosofia ocidental não é mais do que uma nota de rodapé aos textos de Platão. A mim apetece dizer que grande parte dos movimentos culturais da modernidade surge como alternativa à religião cristã, nomeadamente no que toca à sua vertente moral. Algumas revoluções foram tentativas flagrantes de substituir o humilde e irracional cristianismo por modelos racionais e científicos que levariam os seres humanos a abandonar as trevas da ignorância e da opressão para encontrar o verdadeiro (e único) caminho para uma sociedade perfeita. As trágicas revoluções francesa e comunistas, o nazismo, assim como o positivismo do século XIX, são disso um bom exemplo.

O actual e tão propagado conceito de cidadania é resultado de uma moral que deixou de ser religiosa para, filosoficamente legitimada, se tornar essencialmente cívica, cabendo ao Estado, sobretudo através da escola e da lei, a função de educar as massas para uma fraternidade nacional e, já agora, universal. Ora o que passa pela cabeça desta gente é o mesmo que na de filósofos como Platão, para quem o conhecimento da verdade conduz naturalmente a uma conversão ética. Sendo o conhecimento uma virtude, quem conhece o bem será bom, quem conhece o justo virá a ser justo. E cá está a educação na cidade, na república para lá chegar. 

Tal visão intelectualista da moral é frágil, e nada como a realidade para o mostrar. O amor cristão, em virtude da sua natureza religiosa, é espontâneo, incondicional e imune a vicissitudes sociais, politicas, económicas e culturais. Já o civismo, a cidadania, a ética republicana dependem de várias condições. Os cidadãos respeitam-se e enternecem-se com os valores apenas se as condições o permitirem. Basta uma crise, um pequeno desvio na ordem social, um parafuso enferrujado na engrenagem, para que o bem regulado mecanismo comece a dar de si. Isso explica como muito fraterno comunista, outrora empenhado na união dos povos, facilmente se comova com a retórica moralizadora da extrema-direita, ao ver o seu trabalho e a sua segurança em risco, como muito europeu, orgulhoso da sua superioridade cultural, possa facilmente vacilar. O povo é frágil, vulnerável e pouco dado a subtilezas racionais. Por isso valerá sempre mais um belo e empático sermão no cimo de uma montanha do que anos e anos de lições de cidadania.