17 setembro, 2016

O REGRESSO


É regressado ao trabalho que consigo entender um homem tão contraditório como Rousseau, o mesmo que escreve um texto tão optimista e engagé como o Contrato Social, onde explora o sublime conceito de Vontade Geral, e um outro tão amargo e pessimista como Os Devaneios de um Caminhante Solitário, onde escreve coisas como: «A conclusão que posso extrair de todas estas reflexões é que não fui feito para a sociedade civil, onde tudo é opressão, obrigação, dever; o meu temperamento independente tornou-me sempre incapaz de sujeições necessárias a quem quiser viver entre os homens».

Meu deus, como eu entendo esta conversa. Entendo eu e entende a etimologia da palavra "trabalho", que deriva de "tripalium", um instrumento de tortura entre os romanos. Não é que eu não goste de trabalhar e não entenda o dever social, económico e até antropológico do trabalho. Mas gosto muito mais de não trabalhar, da liberdade de não trabalhar, do prazer de não trabalhar. Já lá vai o tempo em que eu dizia que, mesmo rico, não deixaria de trabalhar. Hoje, a minha pulsão para o  ócio sobrepõe-se cada vez mais aos méritos sociais e políticos do negócio. Nós, humanos que nunca chegámos a conhecer o paraíso nem temos qualquer culpa do edénico disparate dos nossos bíblicos progenitores, não merecíamos que o raio do Pecado Original nos saísse tão caro. Vale surgir de  novo, radiante, o fim-de-semana, esse pequeno vislumbre de salvação. Arbeit macht frei? Só tresloucados, cínicos e perversos nazis se lembrariam de uma coisa destas.