25 setembro, 2016

EM BUSCA DO TEMPO PERDIDO


António Sena da Silva | Lisboa, 1957

Ora eu, que nesta fidalga e francesa Lisboa tenho sido espectáculo de riso, pedindo nos hotéis, e recomendando aos meus amigos, o caldo verde, insisto costumazmente em me expor à mofa de gente culta, dando à estampa, neste lugar e para meu duradouro opróbrio, o panegírico do caldo verde, caldo de meus avós, e de padre João, e de sua irmã.  Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal

Poucas coisas haverá que sejam absoluta e incondicionalmente boas, como poucas também serão as absolutas e incondicionalmente más. Fiz-me adulto depois do 25 de Abril, com o que de bom os seus ventos trouxeram. Mas tive igualmente o desprazer de assistir ao fenecimento de muito dos nossos diversos e ricos patrimónios, fosse por deliberada destruição revolucionária, desmazelo e esquecimento, ou mera pulsão modernizadora. Camilo viveu numa Lisboa francesa. A minha geração, por sua vez, foi testemunha da passagem de um país francês para um outro anglo-saxónico, sem grande tempo para chegar a saber muito bem o que é ser português.

Querela-se hoje sobre os benefícios e prejuízos do turismo em Portugal com tanta veemência e entusiasmo como em tempos as vantagens e desvantagens dos antigos e dos modernos. Compreendo os incómodos para quem precisa de trabalhar em cidades como Lisboa e Porto, com muita mais gente a compor as ruas e transportes e com um distraído de câmara na mão, a olhar para o ar, em cada esquina. Mas uma coisa é certa: o turista, procurando e valorizando o que é nosso, obriga-nos a olhar e a valorizar o que é nosso. O turista surge assim como um espelho salvador onde o nosso reflexo nos dá uma auto-consciência que soava perdida, depois de anos, por rotina e fastio, a estrangular tanta coisa bela e boa que nos vitaminara a cultura durante gerações.

É verdade que muita casa foi destruída, muitos cafés antigos e tabernas morreram, exangues, por falta de uma clientela que adquiriu novos hábitos, o fado viveu dias de amargura (e eu até nem gosto de fado), muitos bons pitéus e guloseimas foram sendo trocados por nomes exóticos de outras paragens, dando um ar de modernidade e cosmopolitismo industrial a arroubados nativos, cada vez mais exorbitados das suas origens. Porém, apesar de tanta coisa perdida, ainda fomos a tempo de salvar outra tanta moribunda e preparada para desaparecer. Claro que não nos isentamos de oferecer ao loiro forasteiro muito ardiloso ersatz ou artificiais pastiches de objectos ou tradições cujo viço parece nunca ter sido beliscado pela ingratidão da história e do progresso. Mas também é verdade que foi graças aos turistas que nós próprios passámos a olhar de outro modo para os nossos rios, ruas, avenidas, praças, eléctricos, miradouros, esplanadas, cafés, monumentos, pratos, festas ou revigoradíssimos pastéis de nata, pastéis de bacalhau ou francesinhas. A Lisboa de Camilo podia ser francesa. Mas a francesinha, como o pastel de bacalhau (com ou sem queijo da serra) ou o pastel de nata, é nossa, e há muito que não era tão nossa como agora. Andamos a recuperar tempo perdido, só que aqui as madalenas são outras.