27 setembro, 2016

AQUILES E A TARTARUGA

Umberto Verdoliva

Gente da minha já adiantada idade costuma dizer, com laivos de sapiência tardia, que seria bom ter agora 20 ou 30 anos mas sabendo o que se sabe hoje. Diz-se isso por se acreditar que envelhecer traz sabedoria por oposição a uma natural ingenuidade juvenil, fruto da inexperiência e de «pouco mundo» ou «pouca vida». Mas não é bem assim. Isso de acreditar que a verdadeira sabedoria está num "hoje" quase perfeito que aparece depois de outros "hojes" bastante imperfeitos, não passa de uma ilusão. Confiamos no que sabemos hoje por oposição ao que não sabíamos antes. Mas nunca pensamos no que não sabemos hoje em oposição ao que viríamos um dia a saber, se vivêssemos mais. Vivêssemos 150 ou 200 anos, e o que julgamos ser a actual idade da sabedoria, passaria a ser a mesma idade ingénua que agora vemos quando olhamos para trás. E se fossem 500 anos, seria o mesmo, sendo assim ad infinitum. Porque quanto mais se vive mais há para saber e por isso menos se sabe.

É verdade que se soubesse o que se vem a saber depois, erros anteriores podiam ser evitados. A pessoa que ficou paraplégica por ter feito uma ultrapassagem perigosa já não a teria feito se soubesse que iria morrer, seguido tranquilamente a sua viagem. Trata-se, porém, de um erro grosseiro, um erro objectivamente entendido como tal. Mas se chegássemos aos 200 ou 500 anos, não iríamos evitar os erros que só a posteriori sabemos que são erros. Estes, como o veloz Aquiles, partem sempre à nossa frente e, para nós, pobres tartarugas, é sempre demasiado tarde quando finalmente damos por eles. Com o tempo, ao contrário do que acontece com o espaço no paradoxo de Zenão de Eleia, Aquiles ultrapassa mesmo a tartaruga.