24 setembro, 2016

AMOR SÓLIDO


Bill Epridge, O Beijo | 1963

- Então a menina cuida que uma pessoa só se conhece por ser vista muitas vezes? (...) Pois como eu vinha dizendo, a História Sagrada conta que antigamente um moço saía da sua terra em cata de outra terra, onde estava a noiva, que ele nunca vira. Batia à porta do sogro, pedia-lhe a filha, e casava. Isto é que eram tempos, moça! (...) Naquele tempo, a moça casadoura era por dentro como por fora; via-se como à luz do meio-dia o que ela tinha no seu interior; agora pelos modos, é preciso espreitar muito tempo as inclinações das pessoas! Camilo Castelo Branco, O Bem e o Mal

No secção de anúncios do Jornal Torrejano desta semana, «Homem, de 56 anos, com casa própria, adorava conhecer senhora magra, para futuro compromisso». Eu, inveterado e incurável romântico, leio este anúncio e não posso deixar de me comover com a atávica pureza deste homem só. Interessa-lhe saber se a putativa mulher que irá responder ao anúncio, está, seja por dom da natureza ou por adquiridas convenções sociais, concertada com as suas inclinações? Saber se é dotada intelectualmente ou se vive antes num estado de permanente burrificação, se é tímida ou extrovertida, se é terna ou mais de andar com o rolo da massa a azucrinar o juízo, se tem voz bonita de se ouvir, se tem gosto a vestir ou a decorar a casa, se é asseada, se é poupada, se fuma, se sabe estar à mesa, se usa perfumes tóxicos, se é rica ou pobre, se trabalha ou está desempregada, se gosta de viajar, de cozinhar, de telenovelas, de sair, de música, de cinema, de arte, de desporto, de comer, de beber, de política, se é de esquerda ou de direita, do Benfica, do Sporting, do Porto ou da Académica, se tem filhos, cão, gato, hamster, cágado ou periquito, enfim, a magna questão de poder ser bonita ou um estafermo que faz doer os olhos, ou a sempre vexata quaestio das potencialidades no que às íntimas e afrodisíacas artes diz respeito. Nada, nada disso importa, tudo isso é vão e supérfluo, contanto que seja magra. E o que espera ele que ela espere dele? Nada, qual desporto ou arte, qual beleza ou feiura, qual bom ou mau feitio, qual inteligência ou falta dela, qual tudo aquilo que ele próprio não precisa de saber dela, desde que esteja para lá da magreza? O que pode querer uma mulher de um homem a não ser uma casa própria? Uma mulher magra, um homem com casa própria, eis a suprema receita de uma eterna e dourada felicidade, num tempo de amor líquido cuja fórmula química foi descoberta pelo Diabo quando Deus se distraia a ralhar com os nossos edénicos progenitores, enquanto os expulsava do paraíso.