03 setembro, 2016

ABELHINHAS E ABELHÕES

Leon Wyczółkowski | Eu vi uma vez

Um dos pontos fortes de A Midsummer Night's Sex Comedy, de Woody Allen é a deliciosa tensão entre a ordem e a desordem, a razão e o irracional, a civilização e a natureza. E, na sequência de outros filmes como Une Partie de Campagne  ou Le Déjeuner sur l'Herbe, de Jean Renoir ou Sorrisos de uma Noite de Verão, de Bergman, o apelo da natureza é mais forte, ficando as emoções completamente rendidas a uma outra ordem que vence os vulgares mecanismos racionais que supostamente regulam o nosso livre-arbítrio.

O que salta à vista nesta pintura é essa tensão. Pronto, temos um ambiente formal. Uma elegante sala burguesa com o seu inevitável piano. Uma menina que toca piano e certamente falará francês. Pela posição do seu corpo, todo virado para o piano, pelas suas mãos, uma no teclado, a outra, virando a página, percebemos que deseja mesmo tocar piano, e tocar piano para o bem vestido, bem parecido e certamente culto e educado jovem que lhe faz companhia. Eis, pois, a cena montada com toda a sua apolínea clarividência. Mas qual é o verdadeiro centro de gravidade da imagem? O que se vê mesmo ali? O amarelo. O amarelo como força centrípeta que suga os nossos olhos para o primeiro plano. A ideia de amarelo é perigosa e traiçoeira. Diz-me o dicionário Houaiss que amarelo pode ter como sinónimos "desmaiado", "pálido", "descorado". E amarelar é "perder o viço". Amarelo, neste sentido, tanto lembra uma pessoa doente como um jornal velho ou a lenta morte de vegetais ou frutos que antes foram carnudos e lustrosos. Pensado assim, quase poderíamos dizer que o amarelo nem é bem uma cor mas uma ausência de cor. A cor na qual qualquer cor teria medo de se tornar se as cores tivessem consciência de si. Mas não é esse temido amarelo que aqui vemos pintado pelo artista polaco. Trata-se de um amarelo vaidoso, orgulhoso, um amarelo narcísico que abafa tudo o que o rodeia. Um amarelo rutilante, vivo, provocador, um amarelo que quer dizer ao mundo que é mesmo amarelo. Um amarelo tão amarelo que nos atrevemos a dizer que a rapariga não está apenas vestida de amarelo mas vivida de amarelo. Um amarelo que incendeia a monotonia dos dias como um farol que tenta salvar a noite da sua escuridão. E um amarelo em claro contraste com as cores sóbrias e convencionais do jovem burguês. 

Mas o amarelo não surge aqui isolado. Apesar da sua importância e relativa auto-suficiência, o amarelo é aqui complementado com outro elemento decisivo. Por cima, do piano, por cima da pauta, o que vemos? Um esplendoroso bouquet de flores silvestres, completando a diagonal do corpo amarelo da rapariga. E já que, com a diagonal, entramos no campo de um olhar geométrico, levemos mais longe o exercício. Temos a rapariga de amarelo no início da diagonal. Depois, o piano. Depois do piano, a pauta com as notas musicais. Por fim, as flores. Ou seja, há aqui uma clara harmonia simétrica entre os extremos e o meio. No meio, temos a ordem, a civilização, a técnica, a sofisticação estética, o rigor formal de uma composição clássica. Nas pontas, porém, o que temos? A espontaneidade da cor, o esplendor dos sentidos, o fulgor aromático e selvagem da natureza que desconstrói por completo a sobriedade e convencionalidade burguesa do salão. Esta rapariga quer tocar piano, quer concentrar-se no rigor da execução, mas o seu vestido, o seu vestido amarelo transforma-a numa livre e indomável abelhinha à solta. E o burguês e convencional rapaz que a rodeia, faz por ouvir a música, aliás, parece mesmo estar a acompanhar a execução da jovem com a sua voz e gestos mas esqueceu a sua máscara apolínea, tornando-se num abelhão embevecido atraído pela jovialidade dourada da jovem donzela.

Se encostarmos o ouvido a esta  pintura, podemos, com algum esforço, ouvir a melodia das notas musicais a sair dele, cá para mim uma coisa alegre, que tanto pode ser uma sonata de Mozart como uma popular canção polaca. Mas o que ouvimos mesmo bem, abafando a própria música, são os risos livres destes jovens, as suas espontâneas gargalhadas que têm tanto de pueril como de provocador, acompanhadas por gestos que a sábia natureza ensinou a afinar, e desafinando o que tanto trabalho e paciência deu a um civilizado músico a compor. A rapariga amarela toca piano, é verdade. Mas o que na verdade ali faz é apenas cumprir as leis que a sábia natureza conhece milenarmente e que nós, humanos, tendemos a disfarçar, transformando aquela burguesa sala num templo sagrado na qual estes dois jovens se encontram um com o outro no exacto momento em que se perdem.