28 setembro, 2016

A FÚRIA DO AÇÚCAR


Vai não vai, somos bombardeados com cada vez mais e sofisticadas provas dos terríveis malefícios do açúcar. Eu, lastimado penitente digno de compaixão, pungido guloso, envenenado por quilos da branca peçonha ao longo da vida, fico com os meus circuitos neuronais a curto-circuitar com todo este espalhafato médico-científico. Mas aproveito a triste oportunidade para degustar esta bela trouxa de ovos de prosa de um Camilo já muito sacrificado pelas suas crónicas maleitas, epistolada em lume forte ao Visconde de Ouguela:

«Amanhã vou para Vizela. Os médicos de Coimbra mandam-me para lá; os de Braga dizem-me que nem passe por onde houver águas sulfurosas. Opto pelos coimbrões, como quem deseja morrer cientificamente. Ou bem que Coimbra é foco de sapiência ou que não. Se eu por lá acabar, ataca tu a medicina com o teu mais fulminante estilo, e aconselha a D. Luís que faça aos médicos o que D. Pedro I fez aos juriconsultos».

Esta gulosa ideia de poder morrer cientificamente (mal sabendo Camilo quão pouco científica iria ser a sua morte 15 anos depois) está em perfeita harmonia com a presente moda de viver cientificamente. Os tarados da vida saudável que, religiosamente, arquivam na sua galeria de horrores as mórbidas notícias sobre a toxicidade do açúcar, para serem rezadas várias vezes ao dia entre as matinas e as completas, devem adorar aqueles diarreicos fluxos de percentagens segundo os quais o excesso de açúcar aumenta 33,3% a possibilidade de ter a doença X, 38,2% a doença Y, 27,8% a doença Z, julgando que, em virtude de uma sã e científica existência, podem fintar a sinistra visita da morte ou, quando tiver mesmo de ser, o passamento será o mais científico possível, o que deve causar frémitos de prazer nas hipocondríacas circunvoluções de tão ansiosos penitentes.

Mas o que me traz agora aqui não é só constatação deste pitoresco desvario sociológico que faz recuar a vida moderna até levíticas eras, ainda que as matérias poluentes fossem outras. Quero apenas centrar-me no carácter paradoxal do problema que, apesar de filosófico, foi literariamente apresentado por Balzac, em 1811, com o fantástico romance A Pele de Chagrin. Trata-se de uma história na qual um jovem, após tentativa de suicídio, entra numa loja de antiguidades onde adquire a pele de um animal. Segundo o proprietário, quem a possuir conquista a possibilidade de viver eternamente mas na condição de não poder sentir qualquer desejo. Sempre que sentir algum desejo a pele encolhe um pouco, perdendo o seu possuidor parte da sua energia vital, até definhar completamente, um pouco como as vidas que se vão perdendo nos jogos de computador, até ao Game Over. Eis o destino de quem a possui a pele: se queres viver, não desejes, se desejas, não viverás.

Também os traumatizados pelo distópico poder do açúcar vivem presos neste tipo de imperativa e categórica armadilha: não comas muitos doces que te dão prazer e viverás uma longa vida. Caso contrário, mais cedo irás adoçar a boca dos bichinhos que, avidamente, esperam por ti na tua morada final, sem terem grandes pruridos face à diabetes, obesidade, colesterol, cancro e o diabo a sete. Ora, isto remete para o velhinho problema da eudaimonia, ou seja, a "vida boa", mais conhecida por "felicidade". O que será, pois, a felicidade? Não quero ir longe na resposta. Apenas dizer, de um modo filosoficamente menos elevado, que não se pode ter sol na eira e chuva no nabal. Convém perceber, o que até nem é difícil, que se não é pela boca que devemos morrer, não deve ser igualmente pela boca que se deve viver. Seja por excesso ou por defeito. Viver de doces conventuais (meu deus, o que eu não dava agora por uma coroa de abadessa, um pãozinho de rala, uma morcela de Arouca), gelados ou toblerones não dá saúde a ninguém. Quem o fizer ou andar perto disso, estará mesmo doente e precisa de ajuda e, neste caso, psiquiátrica. Porém, tenho para mim que, tal como acontece com o álcool, a esmagadora maioria das pessoas sabe, por instinto, quando pode começar e deve acabar. Por muito que os cientistas nos queiram convencer do contrário, é vivendo como sensatos animais (e os animais são invejáveis exemplos de sensatez) que a vida será melhor vivida. E esperando pelo momento certo para, consoladinhos, deixar a pele de Chagrin definhar de vez.