13 setembro, 2016

A FONTE DO COITO

William Adolphe Bouguereau | Ninfas e Sátiros

Quando era rapaz novo, um dos meus maiores medos era o de enlouquecer. Hoje, é uma das minhas esperanças. E não, não tem nada que ver com aquela parva e subversiva ideia, explorada há uns anos pela anti-psiquiatria, segundo a qual a loucura pode ser uma saudável forma de resistência a padrões morais e relacionais de um alienante mundo capitalista ou um sinal de genuína humanidade no seio de uma família impessoal e despótica. Uma coisa é lixo ideológico disfarçado de sapiência científica, outra é perceber os reais e genuínos benefícios da loucura que aqui venho elogiar.

Numa das suas cartas ao  visconde de Ouguela, escrita no Outono de 1875, queixa-se Camilo de ver os filhos a endoidecerem e a «burrificarem-se». Mas sem entrar em pormenores. Mais tarde, porém, abre mais as janelas do desespero e já conta que o Jorge, esfarrapado, anda de noite, com a sua flauta, a conversar com os rouxinóis. O Nuno, esse, «inventa processos para que os grilos hajam prole das grilas». Mas afinal de contas quem é este homem que se queixa da loucura dos filhos? É o homem, diz ele mesmo, mais privilegiado do planeta em dores de corpo e de alma, a qual é fria e escura como as masmorras. O homem que vai à Foz do Douro e diz que o iodo do mar combinado com a sua podridão dará em breve um iodureto de trampa. O homem que anda pela casa de Seide como uma alma penada para quem a sua atribulada vida não passa de uma malsã recordação. O homem que vive numa casa onde tudo sofre excepto o Nuno e os patos no tanque. Camilo sofre porque tem consciência de si, da sua miserável realidade, do seu miserável destino. Ao contrário do Jorge e do Nuno, ambos felizes, um namorando os rouxinóis ao luar com a sua flauta, o outro, centrado nas trocas carnais entre grilos e grilas. No meio desta tragicomédia, quem quer ser Camilo e quem quer Jorge ou Nuno? Quem quer a parte trágica e quem quer a parte cómica?

Dizia o psiquiatra Viktor Frankl que quando a realidade é má, devemos transformá-la. Se, todavia, não conseguirmos transformá-la, devemos ser nós a transformarmo-nos. Ora, há muito que percebi que não consigo mudar a realidade. Desgraçadamente, vou ter de continuar a trabalhar e quanto mais velho estou mais tenho de trabalhar, quando deveria ser o contrário. Olho à minha volta, e se não vejo o PSD a governar com o CDS, vejo uma geringonça mal amanhada. O mundo está perigoso, feio, desagradável e demasiado moderno para o meu gosto. Não tenho fotografias maravilhosas e felizes ou quilos de profunda cultura para partilhar no facebook com centenas ou milhares de amigos, e como se isso não bastasse sou obrigado a ver diariamente o presidente do Sporting.

Resta-me enlouquecer. Não como Jorge ou Nuno mas como Quixote. Isso explicará o facto de, há dias, ter reagido com poética emoção à vulgar notícia de um crime na primeira página de um jornal. Na altura não o percebi, tendo visto isso como sendo apenas um fugaz devaneio de quem acaba de regressar ao trabalho com muito Sol quente sobre uma frágil cabeça. Só que, dias depois, vou serenamente na estrada, e quis o destino, esse autor desconhecido que escreve a nossa história sem que disso tenhamos consciência, que passasse por um cruzamento onde vejo uma placa a apontar para uma terra chamada Fonte do Coito. O poeta recalcado que há em mim deu logo sinal. Se o crime da tal notícia me levou para um belíssimo conto de Yourcenar, ter visto a placa com o nome desta terra fez a minha desvairada imaginação levar-me quixotescamente para a história medieval contada por Bergman em A Fonte da Virgem. E já que estou a enlouquecer, tal como Quixote, em virtude das variadas leituras, filmes, pinturas ou músicas que me foram secando o cérebro, mereço uma loucura sadia e gratificante. Acontece que o coito de A Fonte da Virgem é um coito trágico, criminoso, soez. A ideia da fonte no final do filme pode ser bela mas é uma beleza trágica e para tragédia já basta as planificações que vou ter de começar a fazer, mais o trabalho de director de turma e as estúpidas e inúteis reuniões que virão. 

Ora, se o sentido da realidade está preso por limitados espartilhos conceptuais, uma tresloucada imaginação permite voar para onde queremos. Daí ter transformado uma simples terra do Portugal profundo numa fonte cujas águas são procuradas por imortais ninfas e faunos, vindos do mundo antigo, refrescando-se para, quais grilos e grilas do Nuno, transformarem a vida numa festa dionísiaca. Quem bebe da Fonte de Hipocrene, escreve, quem beber da Fonte do Coito, coita, e cada um escolherá a água que mais lhe convir. Coitado de mim, dirão os desprevenidos leitores, vendo o estado a que eu cheguei. Feliz de mim, direi antes, por me ter reconciliado com um dos meus medos da adolescência. E embalado pela pastoril flauta do Jorge. Coitado, sim, do pobre Camilo, que teve de emborcar litros e litros da água de Hipocrene para poder sustentar a felicidade dos filhos tontos.