22 agosto, 2016

TERROR


Jorge Molder | série Nox, 1999

Farto de ser vítima da minha desorganização mental, decidi finalmente fazer uma lista das compras para não ter que chegar a casa e descobrir que me faltou a salsa, a lata de grão ou os queijos frescos. Sentar-me pacientemente na mesa da cozinha a escrever a lista das compras teve, na minha bárbara mente, o mesmo impacto civilizacional do Código Hamurabi, da Magna Carta ou do Code Napoleónico nas respectivas sociedades, daí o meu natural orgulho ao ver a minha letra, apesar de horrível, ao serviço de uma causa superior: a passagem do caos ao cosmos na intimidade de uma teogonia doméstica. Saio de casa todo contentinho e ufano por aí afora, a sentir o fresquinho da manhã, e é já entre a capela de S. António e o Continente que descubro ter deixado na mesa da cozinha a lista das compras do meu orgulho e contentamento.

Há um conto de Nabokov chamado «Terror», onde, entre outras coisas mais radicais e com requintado grau de morbidez e até de uma certa filosófica mistura de insânia e lucidez, explica o narrador que, de noite, ao sentar-se na secretária a trabalhar, se esquece de tal maneira de si próprio que ao ver-se depois ao espelho não se reconhece como sendo ele, tendo aquela primeira impressão de quem vê um amigo íntimo após anos de separação, um rosto familiar mas vazio de significado. O que se passa comigo é um bocadinho diferente mas não menos assustador. Não se trata de deixar de me reconhecer mas de me sentir nas garras de um fantasma interior que brinca comigo, tornando-me refém das suas perversas graçolas. Um fantasma que, através de um insidioso processo  de manipulação, me dissolve e suga para um mundo onde eu eu sou mas já sem ser eu. Estou tão farto dele que a minha vontade era atirar-lhe uma lata de grão como se fosse uma pessoa de carne e osso. Mas um fantasma é como um gás que nos toca, abraça, envolve, aperta mas sem  se deixar tocar, abraçar, envolver, apertar. Sacana.