19 agosto, 2016

CARRUAGEM 21



À minha frente, no Intercidades, viaja um casal já de uma certa idade. Entretanto, o comboio pára numa estação e pouco depois chega ao pé deles uma jovem que, algo arrogante e sem hesitações, lhes diz que um daqueles lugares é dela. Apesar da minha má visão por estarem de costas, percebo alguma atrapalhação no casal, tendo o homem dito, ele sim, hesitante e com alguma humildade, que julgava estar no lugar correcto, começando de imediato a procurar os bilhetes. E a rapariga, que não, que eles é que estavam mal e, denunciando já uma certa impaciência, consulta o telemóvel para provar que um daqueles lugares era o dela. A situação mais confusa fica quando o homem mostra os dois bilhetes, provando estarem nos lugares certos. Foi então que se descobriu que, sim, um daqueles lugares seria o da rapariga se estivéssemos na carruagem 22. Acontece que estávamos na carruagem 21. E sem pedir desculpa ou com o mais leve sorriso de embaraço, a rapariga lá foi para a sua carruagem.

A cega crença que levou a  rapariga a achar que estava cheia de razão, é muito interessante. Não por esta situação insignificante mas a sua semelhança com outras, essas sim relevantes, que incorrem numa falácia que consiste em acreditar que pelo facto de uma parte ser verdadeira, o todo ao qual pertence também o será. Crenças de natureza política, ideológica, pedagógica e tantas outras. Por exemplo, ser comunista pelo facto do comunismo conter alguns valores bondosos para a humanidade, entusiasmar-se com as primaveras árabes ou a exportação da democracia liberal para o mundo muçulmano em virtude da sua bondade intrínseca ou a fé em modelos pedagógicos letais para o ensino sob pretexto de apoiar os jovens menos favorecidos. Uma das características do pensamento utópico explicada por Isaiah Berlin, é a crença dogmática num todo onde os valores se conjugam harmoniosamente, sem qualquer tipo de conflito ou incompatibilidades. Crença que está na origem de enormes crueldades e atrocidades em nome de princípios justos e verdadeiros.

Conheci o cartonista George du Maurier (1834-1896) graças a um romance de David Lodge, «Autor, Autor», uma grande e comovente homenagem a Henry James, grande amigo daquele e onde surge como personagem importante. A ilustração que vemos em cima é uma das suas mais conhecidas. O jovem e simples clérigo, fazendo grande cerimónia em casa do bispo que o convida para jantar, não rejeita o ovo em más condições que lhe é dado a comer. É fantástico o sentido de humor de Du Maurier perante a humildade do jovem que tem a consciência do todo ser mau mas não quer desapontar o bispo. Embora por razões completamente opostas (arrogância, presunção de superioridade, vontade de  poder em vez da humildade, simplicidade e até subserviência do jovem), a mesma piada poderia ser atirada a todos aqueles que falaciosamente rejeitam a ideia de um ovo estar estragado pelo facto de certas partes deles serem supostamente comestíveis. Falácia que já levou milhões de pessoas ao longo da história, a tremendas intoxicações. Noutros contextos, por acreditar que aquele lugar era o seu, nem quero pensar no que poderia fazer aquela jovem ao casal que viajava sossegadinho no seu lugar rumo ao seu destino.