31 agosto, 2016

BURKINI

Masao Yamamoto | #1400, Série Nakazora, 2006

[...] Lilliput e Blefuscu, as duas grandes potências que, como lhe ia dizendo, estão empenhadas numa guerra violenta que dura já há trinta e seis luas. Começou da seguinte maneira: todas as pessoas reconhecem que o modo primitivo de partir ovos antes de os comermos era o de parti-los pela extremidade mais larga; mas o avô do actual rei, quando era ainda criança, cortou uma das mãos ao partir um ovo de acordo com o costume antigo. Imediatamente, o imperador, seu pai, publicou um édito ordenando que todos os seus súbditos passassem a partir os ovos pela parte menor, incorrendo em grandes castigos os que desobedecessem a esta ordem. O povo ressentiu-se tanto desta lei que, de acordo com as nossas histórias, houve seis revoltas; numa delas, um imperador perdeu a vida; noutra, um imperador perdeu o trono. Estes tumultos civis foram constantemente fomentados pelos monarcas de Blefescu; e quando eram interrompidos, os exilados procuraram sempre refúgio naquele império. Calcula-se que onze mil pessoas em diferentes períodos tenham preferido a morte a partir os ovos pela extremidade menor. Já foram publicadas muitas centenas de volumes imensos dedicados a esta controvérsia. Mas os livros dos que se mostram a favor da quebra dos ovos pela extremidade mais larga estão, de há muito, proibidos, e os partidários desta ideologia incapacitados, por lei, de ter empregos. No decurso destas desordens, os imperadores de Blefescu manifestaram-se frequentemente, por intermédio dos seus embaixadores, acusando-nos de provocar uma divisão na religião por irmos contra uma doutrina fundamental do nosso grande profeta Lustrog, contida no capítulo quinquagésimo quarto do Blundencral (o Alcorão dos lilliputianos). Isto, contudo, é considerado como uma simples distorção do texto, porquanto as palavras exactas são as seguintes: "Todos os verdadeiros crentes partirão os ovos pela extremidade conveniente." Ora, qual seja a extremidade conveniente parece-me ser, na minha humilde opinião, uma questão que deve ser deixada à consciência individual [...].

Jonathan Swift, As Viagens de Gulliver, 1726