01 agosto, 2016

AI QUE PRAZER TER UM LIVRO PARA LER

Peter Vilhelm Ilsted | Mulher Lendo, 1907

O fenómeno não é novo. Mas também é verdade que nunca foi tão fácil como agora ter uma razoável cultura literária sem precisar de ler. A receita é simples: ler umas recensões críticas em jornais de referência, apanhar de raspão na TV, durante um zapping, algumas ideias sobre um livro, e quem diz TV diz um blogue, enfim, algumas úteis informações cozinhadas nas redes sociais para serem reaquecidas e servidas as vezes que forem necessárias, sem que o livro tivesse alguma vez surgido à frente dos olhos de tanta gente supostamente culta e dando ares de intelectual, que já não andando na rua com um livro debaixo do braço como em tempos, usa o teclado de um computador para mostrar ao mundo toda a sua vasta erudição. Nada disto é grave, a vida é mesmo assim, e de certeza que já nos salões literários do séculos XVIII e XIX, embora por via oral, o mesmo fenómeno ocorreria.

O que não deixa de ser engraçado, mas também não menos perverso, é o natural processo corrosivo da memória acabar por colocar num mesmo nível de cognição a pessoa A que leu um livro e a pessoa B, que não o leu, e do qual irão ambas falar. Cinco, dez ou vinte anos depois de se ler um livro, o que dele se sabe é praticamente o que sabe quem não o leu mas dele sabe falar graças a um conjunto de referências obtidas ad hoc. E quanto mais distante tiver sido a leitura mais as duas posições se equivalem. Tal acontece porque, com o passar do tempo, grande parte dos conteúdos resultantes da leitura se esvaem para se fossilizarem num conjunto de referências gerais, que podem ser aprendidas sem um contacto directo com o texto. Os processos são muito diferentes mas o resultado é o mesmo. O mesmo se passa na escola quando se trata de fazer testes sobre obras que não foram lidas. O aluno compra uma sebenta ou consulta um site onde aprende a conhecer o assunto principal da obra, a resumir os capítulos ou a caracterizar as personagens, podendo vir a ter a mesma classificação de um outro que a leu de fio a pavio, sendo difícil distingui-los. Pode dar-se mesmo o caso do aluno que não leu a obra tirar melhor nota do que aquele que a leu, em virtude de uma boa capacidade para lidar com informações obtidas por via indirecta. O que virá depois, ao longo da vida, não é diferente. Se alguém disser ou escrever que certa pessoa lembra o Bartleby, se comparar o carácter de Aquiles com o de Agamémnon, ou aproveitar umas linhas para dissertar sobre o Quixote, o Homem sem Qualidades, a Recherche (dito assim, com o seu francês nickname, para reforçar as afinidades electivas entre pessoas que falam de livros que não leram), o que se passa na sua consciência é semelhante ao que se passa na consciência de quem efectivamente os leu, e tanto mais assim será quanto mais afastada no tempo tiver sido a leitura, uma vez que «ter lido» não é mesmo do que «estar a ler», do mesmo modo que o pastel de nata comido por um japonês há 5 anos não é o mesmo pastel de nata comido na hora por esse mesmo japonês. A memória de quem o comeu há 5 anos, permite apenas invocar de um modo vago, insípido e demasiado geral um sabor doce que mistura açúcar, ovos, nata e massa folhada, uma textura cremosa por dentro e outra mais rija por fora. Uma memória que, sendo directa (a pessoa comeu mesmo o bolo) acaba por, mutatis mutandis, estar no mesmo plano da memória da pessoa que leu o livro há muito, a qual irá coincidir com a memória indirecta (como diria Espinosa,  um conhecimento por «ouvir-dizer») da pessoa que não o leu mas sabe dele falar. Um processo de cristalização conceptual que pode ocorrer igualmente na Filosofia. Num plano conceptual, o que distingue a pessoa que fala do imperativo categórico depois de ter lido Kant, ou do que pensa Platão sobre a poesia ou pintura depois de ter lido a República, daquela que conhece por ter aprendido numa aula ou lido rapidamente alguma coisa sobre o assunto num site de Filosofia?  

Com o cinema pode acontecer a mesma coisa. Lembro-me de ser garoto e de gostar e falar de filmes ainda antes de os ter visto, por saber do que tratavam, o que criticavam, o que defendiam, o estilo. Qualquer pessoa pode fazê-lo, tal como faz com os livros. Todavia, por muito aborrecido, complexo, tortuoso que seja o filme, bastam duas horas para que se chegue ao fim, valendo assim a pena o investimento para depois dele se falar com erudito e pimpão «conhecimento de causa». Com o livro já é mais complexo. Ler exige mais atenção, concentração, tempo. Mesmo um livro de cem páginas exige algumas horas de leitura e de total afastamento do mundo, exilando o olhar numa folha de papel onde, ao contrário de um filme, por muito parado que seja, nada acontece, apenas caracteres pretos numa superfície branca, os quais terão de ser descodificados por alguém em cuja mente é obrigatório existir vida inteligente.

Porém, se de um ponto de vista conceptual ou no plano dos lugares comuns sobre um livro ou uma personagem (quem não sabe distinguir, mesmo sem ter lido, o Quixote de Sancho Pança? Revelar profundos conhecimentos de psicologia para caracterizar Raskolnikov ou Julien Sorel ou uma mítica madalena molhada no chá? Quem não é capaz de ter o seu Hamletezinho de trazer por casa? Ou capaz de debitar meia dúzia de ditos espirituais de Oscar Wilde com a mesma naturalidade de um analfabeto que clama pelos «egrégios avós» quando canta o hino nacional num estádio?), não há grande diferença entre quem lê e quem não lê, existe, todavia, algo que não é de somenos importância, que os separa: o prazer de ler. Prazer, mesmo que grande parte da leitura se esqueça ou dela se venha a ter apenas uma vaga memória. Ler não é um processo com vista a um resultado mas o próprio resultado, um fim em si mesmo. Ainda que passados uns minutos o sabor desapareça, não se deixa de comer o pastel de nata, pois o objectivo é precisamente o prazer que dá comê-lo. E mesmo que haja a necessidade de o fazer para matar a fome, o prazer de o saborear não é idêntico ao prazer de deixar sentir fome. O primeiro situa-se num plano estético, o segundo num plano funcional. Precisamente o mesmo que distingue quem leu livros dos quais parcialmente se esqueceu, de quem deles fala sem nunca os ter lido mas dos quais se serve para alcançar objectivos que nada têm que ver com tudo aquilo que um bom livro pode proporcionar a quem o leu.