23 agosto, 2016

A ESPLANADA

Sebastiano del Piombo | Giovane Romana detta Dorotea

E por falar em contos de Nabokov, há um outro, chamado La Veneziana que, escrito em 1924, antecipa a ideia, embora mais estética e fenomenológica do que física, de se poder entrar dentro da pintura, como viria a fazer Yourcenar num dos seus Contos Orientais, o realizador Akira Kurosawa num dos seus belos «sonhos» com a pintura de Van Gogh ou, noutro contexto, o que fez Woody Allen no fabuloso Rosa Púrpura do Cairo, onde uma mulher. numa sala de cinema. entra no próprio filme depois do seu herói sair da tela para a levar.

O conto tem pano para mangas mas restrinjo-me apenas ao seguinte. No castelo de um coleccionador de arte, encontra-se um quadro de Sebastiano del Piombo chamado La Veneziana. Na realidade, o quadro não existe mas, segundo Dimitri Nabokov, filho do escritor, é quase de certeza inspirado num outro do mesmo pintor, esse sim, verdadeiro, e que ele terá visto no Staatliche Museum de Berlim, chamado Giovane Romana detta Dorotea. No castelo, encontra-se a passar uns dias um restaurador e grande amante de pintura (McGore), assim como Simpson, um jovem simples e apagado e sem quaisquer conhecimentos de arte. Convidando o segundo para contemplar o quadro de Piombo, McGore, explicando ao jovem a sua paixão pela pintura, revela que sempre que está perante um quadro que mexe com ele, concentra toda a sua força de vontade para nele entrar, transformando-o numa realidade viva onde acontecem coisas. Coisas às quais, naturalmente, só tem o privilégio de assistir quem fizer esse exercício..

Esta ideia de entrar para dentro da própria pintura fez-me lembrar Malraux a dizer em As Vozes do Silêncio, que a feição principal da pintura moderna é não narrar. Mais: que o fim da arte da ficção é uma condição para o nascimento da arte moderna. Significa isto, claro, digo eu, que se fizermos o exercício de entrar em grande parte da pintura contemporânea actual, não haverá muito para dizer ou fazer. Direi mesmo que a minha vontade é voltar para trás, preferindo sentar-me a ler o jornal numa qualquer esplanada com uma água tónica fresca com limão. Ora bem, associar a pintura a uma lógica narrativa como faz Malraux, não implica pensar em termos puramente figurativos no seu sentido mais clássico e realista, ainda que o motivo seja mitológico ou sobrenatural. Quer dizer, não tem de ser o interior de uma casa holandesa do século XVII, a representação de uma batalha entre cristãos e turcos que, de facto existiu, o rosto fotográfico de um burguês italiano do século XVI, como não tem de ser uma descrição realista de um  anjo a anunciar a gravidez de Maria num quadro renascentista, ou a sua ascensão ao céu num quadro barroco. Muito menos terá de ser um quadro onde o que mais importa é a descrição ilustrativa de um acto social, como nos humorísticos quadros de Hogarth ou, por razões mais sérias (e algumas cómicas) na pintura de Daumier. Dê lá por onde der, grande parte da boa pintura moderna, incluindo muita a já caminhar para a abstracção, é ainda figurativa. E enquanto assim for, abre a porta à narrativa e aos naturais mecanismos da ficção, quanto a mim, a melhor homenagem que à pintura pode ser feita e a mais interessante via de a abordar. Não pretendo com isto dizer que não haja boa pintura não figurativa. Há. Como há péssima pintura figurativa e cujo atroz mau gosto só dá vontade de a atirar pela janela. Quero apenas dizer que o excesso de vanguardismo e de experimentalismo foram, a pouco e pouco, levando a pintura para terrenos cada vez mais pantanosos e que sob a capa da liberdade artística e da procura de novos rumos, a pintura foi-se tornando cada vez mais opaca, limitando-se a alimentar discursos que quanto mais inteligentes parecem, mais vazios e estúpidos se tornam. 

O que significará o desejo de McGore de entrar no próprio quadro? É como sentado numa esplanada de uma cidade de um país onde se chega pela primeira vez, observando o movimento à sua volta em busca de um sentido para o que se vê, fazendo com que essa realidade passe a fazer parte de nós ou nós parte dela, como um texto que se decorou (com o coração, claro), e que passa a fazer parte de nós tal como as nossas memórias mais íntimas e pessoais. Observar com atenção o que se passa à nossa volta, implica uma lógica narrativa feita de pessoas, acções, desejos, emoções, objectivos, ambientes, a mesma lógica a que se refere Malraux ao pensar nas personagens, acções, desejos, emoções, objectivos que, consubstanciados em cores e formas, observamos na arte figurativa passível de ser narrada. Como McGore certamente sabia, o melhor que podemos descobrir numa pintura são os seus cheiros, os seus sons, as texturas dos seus objectos, o que terão dito ou irão dizer as suas personagens, quais os seus processos mentais, transformando cada pintura numa praça onde, sentados numa esplanada, descobrimos a beleza de novos mundos em vez de estarmos apenas a ler o jornal com uma água tónica fresca.