18 julho, 2016

TRIUNFO SEM ODE

Angelo Morbelli | S'Avanza, 1894-96

O rapaz, de vinte e poucos anos, ar universitário, entra na carruagem e senta-se à minha frente. Acto contínuo, saca um livro da mochila, no caso, Pastoral Americana, de Philip Roth, pousando-o no lugar ao lado. Acto contínuo, tira de um bolso o telemóvel, começando a escrever e receber mensagens. Quando hora e tal depois, saio na minha estação, era o que continuava a fazer. 

Eu estava a fazer uma viagem de comboio mas tive o privilégio de fazer uma viagem no tempo. Não no sentido tradicional da expressão, como acontece com a pessoa da cidade que, visitando uma aldeia nos confins da serra, presencia algo que já não existe, mas no sentido de presenciar a própria substância do tempo, essa tempestade de que fala Benjamin, empurrando as pessoas para o futuro. A pessoa da cidade que visita a aldeia, passeia entre ruínas, vendo ainda à superfície, como almas penadas agonizantes, sinais de vida, o que ficou soterrado nas areias do tempo. No fundo, como numa feira medieval só que mesmo a sério, sem figurantes, produtos regionais e organizado por uma câmara municipal. O que me aconteceu naquela viagem foi uma coisa diferente: ver o anjo do tempo no preciso momento em que abana as suas poderosas e implacáveis asas e o seu sopro forte levanta as areias e poeiras que irão cobrir o que ainda está bem vivo e com sangue fresco na guelra.

Aquele rapaz pensou ler aquele livro no comboio. Achou que uma aborrecida viagem de comboio seria um bom momento para pôr a leitura em dia. Porém, não foi capaz de o ler. Não porque não o quisesse (bem pelo contrário) ou até não estivesse muito motivado para o fazer, mas porque o pujante esvoaçar do anjo não o deixou. Não por fazer mexer as folhas, como num dia de vento na praia mas porque a sua leitura foi ultrapassada pela impetuosa e implacável força do progresso. Há coisas que desaparecem da história por serem objectivamente más. Mas não é isso que acontece com grande parte delas. As coisas desaparecem porque surgem outras. As carroças e os arados puxados por bois não desapareceram por serem maus mas porque surgiram carros e tractores, que são melhores, sendo fácil medir e comparar as suas vantagens e desvantagens. Porém, nem tudo o que faz desaparecer objectos, acções, profissões, hábitos milenares, sonhos, é mensurável e passível de ser analisado utilitariamente. O que se deixou de fazer quando as televisões entraram nos lares das pessoas, não era  menos útil e vantajoso do que o que se passou a fazer depois. Ao invés de quem trocou carroças por carros por serem melhores, as pessoas não substituíram o que faziam antes da televisão por passar a ser melhor mas porque as asas do anjo da história a isso as obrigou. Levemente, sorrateiramente, como um gás incolor e inodoro que penetra na consciência das pessoas, alterando-lhes as crenças, os desejos, as motivações, as acções. No fundo, trata-se de uma espécie de lobotomia, impossibilitando o que antes se fazia natural e espontaneamente. Por isso o anjo da história é também uma cirurgião perverso que, com o pretexto do progresso, retira tecidos, limitando os comportamentos das pessoas ao que a sua pragmática e optimista vontade lhes impõe.

É por isso que o gesto do rapaz ao colocar o livro no lugar vazio nada tem que ver com o gesto desta mulher que deixa cair o livro para o chão depois de adormecer. Ainda que o rapaz o faça consciente e intencionalmente e a mulher sem disso se dar conta, ele está muito mais impedido de continuar a leitura do que ela. Ela deixou de ler só porque foi vencida pela lânguida luz e a cálida brisa do entardecer, talvez até embalada pela melodia dos pássaros ou o indolente e melancólico cantar dos grilos. Mas o seu tempo de leitura é o tempo da leitura. Esta mulher sai da sala para a cadeira no exterior com o livro na mão porque ler faz tão parte da substância do seu tempo como o sal da água do mar. Não parou de ler porque o vento da história a impedisse de ler, apenas porque o vento suave do Estio interrompeu a sua leitura naquele final de tarde. Já o rapaz leva o livro para a viagem, sim, mas como se o seu tempo de leitura fosse água numa salina que sob o escaldante e espasmódico Sol do progresso que cria, inventa, excita, revoluciona hábitos, rotinas, prazeres, desejos, vontades, se vai evaporando, até desaparecer por completo nas brumas do tempo.