16 julho, 2016

A TRAGICOMÉDIA DE UM HOMEM NORMAL

Duane Michals, 1982

Quando caiu a ponte de Entre-os-Rios, e andava uma repórter da TVI a perguntar aos familiares das vítimas o que sentiam, muitas pessoas, eu incluído, reagiram com um misto de perplexidade e de escárnio. O mesmo, poucos anos depois, ao ver em directo, auto-estrada fora, o percurso do carro funerário que transportou o jogador Fehér de Guimarães para Lisboa. Já passaram bastante anos mas foram dois momentos importantes da nossa pós-modernidade que, segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, começou num programa de televisão francês no qual uma mulher se queixava da sua vida sexual com o marido.

Qual pois o espanto de ver um jornalista perguntar em directo a um homem que chora ao lado da mulher, acabada de morrer, no atentado de Nice, o que sente? A pergunta pode parecer chocante, importuna, demencial, devassadora. Mas está em perfeita sintonia com o tempo presente, no qual todos nós somos actores e encenadores, vivendo sempre em cima de um palco para, em tempo real, exibir perante um auditório universal essa magistral peça que é a vida de cada um de nós. Uma vida que presumimos sempre da maior importância para o mundo, daí a incontinente e vital necessidade de falar de nós, de expor os nossos estados de alma, de mostrar as fotos de tudo e mais alguma coisa, desde uma viagem, ao prato que temos à frente no restaurante. O jornalista da France 2 não passa de um homem normal que apenas solicita o que todas as pessoas normais esperam de outro homem normal. Diz o mesmo sociólogo que vivemos um tempo líquido, em que tudo é líquido. Tal como as lágrimas daquele homem o serão para o jornalista que lhe pergunta o que está a sentir mas que rapidamente irão secar, pois, paradoxalmente, quanto mais líquido for o mundo mais depressa as coisas secam.