04 maio, 2016

FRANCISCO DE GOYA | OS DUQUES DE OSUNA E SEUS FILHOS, 1788


Tendo nascido, estudado e vivido em Pisa, seria natural que a grande torre em frente à catedral fizesse parte da paisagem quotidiana de Galileu Galilei. Não pela inclinação que desvirtuou a geométrica perfeição desejada pelo seu arquitecto e que hoje faz as delícias dos milhares de turistas que lá vão para, com a selfie da praxe ou a ilusão óptica da mão a sustentar a torre, poderem brilhar no Facebook ou no Instagram. Antes pelo facto de ajudar o cientista pisano a construir uma outra perfeição, num solo menos propício a inesperadas inclinações: a matematização dos fenómenos físicos, nomeadamente a relação entre a força e a velocidade, observada a partir da aceleração de um objecto em queda. Uma grande torre seria pois um bom lugar para as suas experiências, longe, portanto, da cómica identidade que haveria de se agarrar à sua pedra.

Os turistas vão à torre de Pisa por ser um sítio onde os turistas vão. Os turistas imitam-se, sendo tanto mais verdadeiros e eficazes quanto mais virem o que vêem os outros turistas. Sim, mas para além da alegria de poder estar a ver o que outros turistas vêem, o que se passará mesmo na consciência do turista diante da torre? Obviamente o efeito cómico da sua inclinação. Na base dessa sua comicidade não está apenas a fuga a uma ordem marcada pela previsibilidade, a tal previsibilidade que Galileu perseguia nas suas experiências. Estivesse em ruínas como as duas torres de Babel de Pieter Bruegel e fosse a inclinação apenas mais um elemento da sua decadência, seria bem diferente o seu impacto visual, adquirindo uma aura romântica e misteriosa em vez de um vulgar efeito cómico. Tal efeito resulta precisamente do facto de a torre estar inclinada sem perder as perfeitas gravitas e majestas projectadas pelo seu arquitecto. A mesma razão pela qual é cómico ver uma pessoa vulgar a escorregar numa casca de banana ou a entornar um copo de vinho na camisa, mas se for um executivo ou banqueiro de ar grave e impecavelmente vestido, mais cómico se torna. E a partir do momento em que tal acontece, o executivo torna-se um ser humano mais normal, desenvernizado, imperfeito, sujeito às naturais contingências das vidas comuns.

Não terá sido por acaso que Goya subtilmente inclinou Pedro Téllez Girón no célebre retrato onde surge junto da sua mulher e filhos. Convém lembrar que se trata um «Grande de Espanha», um insigne militar, o 9º duque de Osuna. Seria normal que uma figura desta importância surgisse de acordo com as clássicas convenções dos retratos de pessoas com este estatuto social. Uma convenção, sim, mas que pode ter a sua origem na natureza. Em 1872, Charles Darwin publicou o seu estudo The Expression of the Emotions in Man and Animals, estudo esse que ainda hoje serve de base a muitas investigações no âmbito da Etologia e Psicologia. Nesse livro, o eminente cientista britânico contraria a teoria do anatomista escocês Charles Bell, inspirada na Teologia Natural, segundo a qual Deus dotou o ser humano de certos músculos faciais para poder manifestar as suas emoções. Darwin, por sua vez, pretende provar que animais e seres humanos transmitem de igual modo emoções, sendo bastantes os casos de estudo comparativos. Mas não é apenas através do rosto que se torna possível tal comparação. Também a postura do corpo funciona naturalmente como meio de afirmação e engrandecimento, gerando uma aura de superioridade que permite impor respeito a quem o rodeia: erguer os ombros, esticar a coluna para ficar mais alto, levantar a cabeça, empinar o nariz. Eis por que reis e rainhas, nobres, ou qualquer outra figura cuja grandeza deve ficar imortalizada num retrato, surgem nessa posição.

Acontece ter sido Goya um grande amigo de Pedro Téllez Girón, não querendo o pintor escondê-lo sob a capa formal do duque de Osuna. Claro que tanto as cores do quadro como a graciosidade dos rostos lhe retiram o habitual tom austero com que pessoas desta condição social surgem nos retratos. Mas o punctum desta imagem, como diria Barthes, está todo ele na inclinação do duque. Porém, ao contrário do que se passa com a torre de Pisa, não se trata de criar um efeito cómico, ainda que a torre fosse construída com o objectivo de revelar uma nobreza de pedra do mesmo que um nobre surge socialmente como altiva torre de carne e osso, podendo gerar-se assim uma reacção semelhante face às respectivas inclinações. Há, todavia, uma grande diferença que o impede, e quem nos pode ajudar a explicá-la é um filósofo francês chamado Henri Bergson, num livro publicado em 1900, chamado O Riso- Ensaio sobre o Significado do Cómico. A chave está na diferença entre o voluntário e o involuntário. Diz ele que uma personagem é cómica na exacta medida em que se ignora a si própria. E quanto mais natural e espontânea for, mais cómica se torna. Há programas de televisão que mostram pessoas a serem apanhadas em situações caricatas que fazem rir os espectadores. Se os seus desastrados movimentos fossem voluntários, perderiam toda a graça. Sendo involuntários, apesar de, neste caso, e ao contrário da torre, estando as pessoas conscientes da sua condição, instalam um elemento de desordem, surpresa e imprevisibilidade no mundo que lhes confere a tão apreciada comicidade. É também isso que se passa com a torre de Pisa, distinguindo-a de alguns edifícios inclinados contemporâneos de criativos arquitectos, uma vez que para além da ausência de uma majestas original, foram intencionalmente projectados com essa inclinação para fins puramente estéticos.

O duque de Osuna surge ali inclinado, não por causa de problema nas costas, não por estar a ser puxado pela mão da filha ou ter sido pisado por alguém. Fosse isso e tornar-se-ia cómico e risível. O que Goya nos quer revelar com a graciosa e doce inclinação do duque é a sua humanidade, a sua imperfeição, a sua humildade doméstica, o extremoso pai que vive no mundo normal de homens, mulheres e crianças, e não numa espécie de Olimpo aristocrático onde as figuras importantes gostam de se exilar para se demarcarem do comum dos mortais, graças à sua rígida e altiva pureza. 

Foi também uma rígida pureza que perseguiu Kant ao formular a sua teoria moral. A sua perspectiva é claramente dualista. De um lado, a razão pura, fonte das acções genuinamente morais. Do outro, as inclinações, que podem ser emoções, sentimentos, interesses vários ligados a uma dimensão sensível da acção humana, isto é, mais próxima da animalidade. Para Kant, não há nada  de errado num pai tratar bem um filho porque gosta dele. Mas não se trata de uma acção com valor moral. Vendo bem, o que distingue um pai que cuida bem de um filho, de um animal que faz o mesmo em relação às suas crias? Não há nada de errado no amor, no prazer de amar, de cuidar, de tratar bem os outros. Mas não passam de humanas, demasiado humanas inclinações. O que Kant verdadeiramente procurava era uma moral com a mesma marmórea e vertical rigidez de uma torre medieval e imune a qualquer inclinação. O que importa aqui realçar é o facto de a inclinação mostrar o lado mais normal, espontâneo, afectivo, sentimental, emocional do ser humano, em contraste com uma vontade racional, mais idealizada do que concreta, tal como as pessoas importantes dos grandes retratos históricos imortalizados por pintores. Goya foi também um deles. Mas, no caso desta família, o seu desígnio é bem diferente, desidealizando o duque enquanto figura central, fazendo-o descair na direcção do grupo do qual deseja fazer parte. Este quadro bem se podia chamar A Inclinação. É assim que lhe chamo no meu íntimo desde que o conheço, e que faz com que seja tão especial. Estivesse o duque direito, em pose aristocrática, e seria aqui tão banal como qualquer uma das milhares de torres existentes no mundo que tiveram  o azar de não serem como a torre de Pisa.