06 abril, 2016

SOL VERMELHO

William Klein | Cine Poster, Tóquio, 1961

Não compreendo como há quem ainda leve a sério frases como "Conhece-te a ti mesmo", "Sê tu próprio", "Sê aquilo que és". Uma romântica busca de uma autenticidade algures perdida num cantinho da alma humana, em oposição a formas de pensamento e de acção que soam artificiais e revelam o lado mais filistino da natureza humana. Tal busca de uma autenticidade perdida  não passa de uma ilusão. Mas pior do que uma ilusão é ser uma perigosa ilusão. 

Por um lado, que interesse haverá em pedir a um vulgar sacana que se "conheça a si mesmo" ou que seja "ele próprio"? O ideal seria mesmo que não fosse "ele próprio". O mundo está cheio de gente que não deveria ser "ela própria". Depois, ninguém conhece os seus limites ou a sua verdadeira natureza, e ainda bem que assim é. É verdade que o mal não está uniformemente distribuído pela humanidade. Mas também convém não esquecer que muitas pessoas se revelam melhores do que outras apenas porque não lhes foram dadas condições para poderem ser más. O desejo de pureza e autenticidade é uma caixa de Pandora que jamais deverá ser aberta. Será sempre preferível a ignorância acerca de nós mesmos e dos nossos actos, mantendo-nos imperfeitos e ignorantes a respeito dos nossos limites. Sabendo nós que tantas vezes a perfeição absoluta se aproxima perigosamente da imperfeição absoluta, é melhor contentarmo-nos com a tepidez de um Sol de Inverno do que desejarmos um Sol que nos pode cegar e queimar. É que para a alma humana nunca haverá protector solar.